A presidente Dilma Rousseff (PT) deve ter acordado ontem com um mau humor daqueles. Na noite anterior, ela esbravejou muito depois da decisão do TCU (Tribunal de Contas da União) rejeitar as contas de 2014 do governo federal por causa das irregularidades verificadas, que vão da “maquiagem” de índices e “pedaladas fiscais”. Dilma criticou a ação do TCU dizendo que não poderia pagar pelo que não fez. Ministros próximos já começaram, ontem, a seguir a cantilena do advogado-geral da União, Luís Inácio Adams, que logo após a decisão disse que o julgamento tinha sido político e que continuaria buscando saídas para anulá-lo.
O grande problema, neste caso, é que o próprio governo já sabia de antemão que nada do que fizesse impediria a rejeição das contas. Por isso, as manobras dos últimos dias, envolvendo até o STF (Supremo Tribunal Federal), a mais alta Corte do País, foram vistas como gestos desesperados de alguém que, como um náufrago sem boia e sem saber nadar, sabe que não havia saída para evitar que a contabilidade criativa, principalmente no ano passado, trouxesse um novo revés para a presidente. A tentativa de pressionar o TCU e o relator da matéria, Augusto Nardes, surtiu resultado contrário ao almejado.
A presidente e seus novos articuladores políticos (Jaques Wagner e Ricardo Berzoini) terão muito trabalho, a partir de agora, para pacificar a base aliada e conseguir evitar, no plenário do Congresso Nacional, um processo de impeachment. A partir da rejeição das contas pelo TCU, o parlamento brasileiro pode abrir um processo para julgar e até afastar a presidente. Se antes o governo e seus aliados garantiam não haver base legal para isto, agora ela existe. A mudança ministerial da semana passada foi um verdadeiro tiro n’água e a falta de quórum para votar os vetos presidenciais, em duas sessões seguidas, mostrou claramente que o governo não tem, hoje, uma base capaz de livrá-lo de um processo, ainda mais que o maior partido aliado, o PMDB, seria beneficiado caso Dilma caísse. Nesse caso, o vice-presidente Michel Temer, um dos principais nomes da legenda, assumiria a presidência.
Não se sabe como é que a presidente vai agir diante dos últimos acontecimentos — o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) deu sequência ao processo para apurar e julgar irregularidades da campanha de Dilma e de seu vice no ano passado. A articulação será importante para que o governo federal consiga aprovar os projetos de seu interesse, principalmente os relacionados ao ajuste fiscal, ao mesmo tempo em que tentará manter a presidente no seu posto. Pelo que se tem visto nos últimos tempos, nada será impossível. Depende da capacidade de manobra do Planalto.
email opiniao@comerciodafranca.com.br
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.