Aniversário


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Nasci longe daqui, lá do outro lado da serra. Era dezembro.
Quando nem havia pipilos ainda, e a garganta só produzia chiados roucos, o pai e a mãe trouxeram o ninho para aqui perto, para a chácara do Horácio Rosa. De lá se avistavam colinas distantes e se ouvia a Ave Maria, anunciada pelo sino da matriz que badalava no alto do espigão.

Depois, o pai e a mãe mudaram outra vez. O ninho foi colocado num galho fino de uma colina, palco dos primeiros vôos, das primeiras quedas.

Até hoje me sinto amarrado àquela vila, cujo nome guarda a memória do inventor do avião, porque foi naquela margem da cidade que se desenharam a primeira pauta, a primeira nota e o primeiro acorde de minha vida.

A Água da Careta, que se escondia sob árvores e sob ramagens, foi descoberta pela meninice que desconhecia cercas e muros e porteiras. Por isso molhou asas e pés, banhou-se inteira na fonte. O corpo só buscava saciar sedes, mas ficou para sempre algemado à lenda e aos encantos das águas e pedras, dos vales e colinas, das serenatas enluaradas e das mulheres deusas.

Na nobreza do Barão da Franca, a criança inventou amores e paixões pelas professoras Nair Rocha e Maria Peixoto, mulheres que viajaram no dorso de majestosas renas, trazendo lições envoltas em maravilhoso.

— bá, bé, bi, bó, bu.

— ba mais ba, igual a baba,

— bo mais bo, igual a bobo.

E o menino, bobo de desejo, desejava para sempre estar, recém-nascido, no colo daquelas outras mães que restaram saudade – saudade que teima, que persiste.
A Rua General Teles parava na estradinha que viraria Rua Mário Mazini. O resto era um buracão e uma mata que ladeava o córrego. Então o grupo de meninos inventava trilhas, caminhava na beiradinha do precipício, atravessava a mata, chegava ao Córrego dos Bagres.

Em seus remansos se nadava escondido.
Em algum lugar havia uma pinguela. A molecada alcançava o outro lado do córrego, subia barrancos, chegava à casa do professor Antônio Peixoto, ao Curso de Admissão ao Ginásio – trampolim que, há mais de meio século, impulsiona meu passo, minha escrita – canto que desenho para meu irmão.

A infância e a juventude tinham estômago. Assim, elas foram buscar o pão no Bar Rodoviária, na Agência Brasil, na Farmácia Brasil, na caixa de engraxate, na entrega de jornais, na Casa Higino Caleiro. Pão que, muitas vezes, o diabo amassou. Mas, no balanço final, pão. Sempre o sagrado pão.

A garganta tinha de se fortalecer, por isso, a juventude foi morar, por oito anos, no Instituto de Educação Torquato Caleiro. Com as bateias de Luís Martins, de Pedro Nunes Rocha, de Dona Branca, do Senhor Garcia, de Roberto Scarabucci, de Antonieta Barini... a mocidade recolheu esmeraldas e diamantes. Essas riquezas dão brilho, ainda hoje, a cada nota que vou desenhando na escala que se constrói dia a dia.

Tudo indicia, portanto, que foi aqui, na planície, do lado de cá da serra, que a alma levou palmada, sorveu o ar, chorou e sorriu uma primeira e muitas outras vezes.

Foi aqui que errei por caminhos tantos, apaguei encruzilhadas muitas.

Aqui, passo a passo, venho compondo e cantando a minha estrada.

Por isso, sou sagitariano em dobro: aniversario também em 28 de novembro.
 

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