Na sombra do castelo, construí um cercadinho, utilizando gravetos, restos de armaduras, pedaços de lanças e de espadas.
As ferramentas foram as mãos rudes. Com elas, extirpei plantas daninhas; com elas, revolvi a terra vezes sem conta. Antes da semeadura, reguei o canteiro com expectativas verdes e espalhei por todo ele o adubo da candura e do afeto.
Quando a terra e o coração estavam prontos, mergulhei a semente, que explodiu vermelha, transpirando ânsias de céu. O cuidado regou o broto por dias e noites e semanas e meses, até modelar árvore enfeitada de branco e raízes que se aprofundavam no solo.
Colhi uma rosa, escalei a muralha, depositei meu presente na janela da dama de honra da princesa, mas ela ignorou a oferenda. Com repelão limpou o peitoril, e a rosa inconveniente saltou sem paraquedas, espatifando-se nas pedras.
Afastei-me então do cercadinho e do castelo. Fui longe. E, lá no prado, colhi a flor mais singela que existe: o amor-de-moça.
Voltei à amurada do castelo e uma noite inteira eu gastei para escalar a muralha, até alcançar os aposentos da princesa. No peitoril da sua janela depositei minha flor do campo e meu coração de jardineiro.
Quando nela se ouviram pancadas – era o sol –, e ela foi aberta para que o visitante entrasse, a princesa arregalou os olhos e reconheceu meu presente. Como se manuseasse cristais, mãos de anjo seguraram a haste e mãos de anjo viraram concha a proteger a pérola.
Então, a princesa beijou a minha flor, o seu amor-de-moça. E, como se abrisse gaiola, distendeu o côncavo e assoprou.
O ar quente despetalou o amor-de-moça.
Partículas de flor começaram a dançar nas alturas, fazendo com que nuvens de afeto se precipitassem. Começou a chover uma chuva de ternura sobre as árvores, sobre a plebe e sobre os seres.
Aí, o passarinho que dormia em mim acordou.
E cantou-me um hino à manhã.
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