A violência no Brasil já atinge níveis endêmicos, causando a cada ano mais mortes do que a maioria dos conflitos armados mais recentes, como os verificados na Síria, Afeganistão, Iraque e outros países da África. Aqui, se morre por um par de tênis, por um aparelho de telefone celular e até por causa do fim de um romance. A sensação de segurança há muito se tornou rara, principalmente em grandes centros. Muitos brasileiros já não se assustam mais com o que acontece em nossas ruas. A violência, principalmente a ligada ao crime (organizado ou não), banalizou-se. Poucos reagem com indignação diante da morte de cidadãos ou policiais, enquanto há uma gritaria geral quando as posições são invertidas. Desde o começo do ano, vários policiais foram afastados em São Paulo por causa de mortes não explicadas e que extrapolam a questão da segurança. No Rio de Janeiro, também.
Quando os agentes que são treinados para promover a defesa do cidadão se tornam vítimas, quase ninguém fala nada. Anteontem, um fato do tipo ocorreu no Rio, quando o policial militar Caio Jr,, de apenas 27 anos, morreu após ser baleado durante uma ação militar no Complexo do Alemão. A sua morte só ganhou destaque ontem, nas páginas da Internet e jornalísticos da televisão após ser anunciado que Caio era o dublador oficial dos filmes da saga de Harry Potter, usando sua voz para que o mais famoso bruxinho falasse em português. Não fosse isso, a morte do policial — que tinha uma carreira consolidada como dublador, na qual começou criança, mas que se recusava a deixar a polícia mesmo diante do perigo da profissão — se tornaria apenas uma nota num pé de página.
Nos dois Estados mais desenvolvidos do País (SP e Rio), a morte de policiais em ação só cresce. Mas fora, também. Caso sejam surpreendidos por marginais usando farda, fatalmente agentes de segurança são mortos sem que possam pelo menos se defender. Não há apelação e muito menos condescendência. Os fatos se repetem — nesta semana, um soldado foi morto ao se perder em uma favela — e não se vê qualquer manifestação daqueles que usam o escudo dos direitos humanos para defender as vítimas quando os policiais são os agressores. Quando é o contrário, muitas vezes não há nem um registro nas redes sociais ou nos órgãos de imprensa. É preciso que o brasileiro volte a se indignar com a perda de qualquer vida, seja ela de cidadãos, seja de bandidos, seja de policiais. Do contrário, a situação pode se tornar incontrolável e, por isso mesmo, incontornável, deixando-nos presos intramuros, com receio até de ir à esquina comprar pão. O brasileiro não merece passar por isso.
email opiniao@comerciodafranca.com.br
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.