Estrutura do prédio abalada, teto caindo, paredes queimadas, computadores, impressoras, móveis, documentos e arquivos históricos. Tudo consumido pelo fogo. O cenário encontrado ontem de madrugada na Crazz, empresa que cuida das ações de marketing, publicidade e eventos do jornal Comércio da Franca, da radio Difusora e do portal GCN, foi de destruição. Obra de um atentado. Vistoria feita por bombeiros, peritos, policiais civis e, sobretudo, imagens de câmeras de segurança não deixam dúvidas de que o incêndio foi criminoso. Ninguém se feriu. O governo do Estado e as principais entidades de jornais do País repudiaram a covarde agressão. Foi o segundo ataque sofrido pelo GCN em cinco meses. Em abril, bandidos armados com fuzis explodiram o caixa eletrônico localizado na sede do grupo.
A Crazz funciona em prédio na Avenida Eliza Verzola Gosuen, em frente à sede do GCN. Lá ficavam pelo menos cinco mil arquivos de anúncios armazenados em mais de dez computadores, criações publicitárias, parte do Cedoc (Centro de Documentação) das empresas que integram o GCN e todo o material que seria apresentado na exposição sobre o centenário do Comércio, que seria realizada em outubro, no Shopping do Calçado. Entre os objetos adquiridos para a exposição, estavam réplicas da camisa da seleção brasileira de 1958, da bola usada naquele mundial, da primeira bola usada pelo time de basquete de Franca e 30 metros quadrados de grama sintética. Tudo, virou cinzas em questão de minutos. “Quando nos avisaram, imaginei que tivesse sido um foco de incêndio em um ponto específico. Na hora que você chega aqui e olha que não sobrou nada, nenhuma cadeira, é um choque de difícil tradução. A cabeça ainda não está funcionado. Confesso que ainda estou meio abalada”, disse Denise Silva, gerente da Crazz.
A ação
Câmeras de segurança instaladas do outro lado da avenida, no prédio do GCN, flagraram um homem caminhando na calçada da Crazz às 3h13. Vestia camisa e bermuda claras. Nas costas, levava uma mochila, onde, acredita-se, carregou o combustível usado para incendiar o prédio. Na sequência, ele some da imagem. Sete minutos depois, já estava dentro do prédio. Teria entrado pelo depósito da madeireira que fica ao lado. Uma escada foi encontrada encostada no muro que dá acesso à Crazz. O incendiário acendeu a luz e andou pelo interior do prédio.
Às 3h28, o criminoso abriu o portão de um prédio em construção ao lado. Logo em seguida, ele saiu carregando uma televisão. Duas horas depois, às 5h20, o mesmo homem volta e entra novamente no prédio entrando pelo mesmo portão que havia saído. Às 5h27, as imagens mostram ele caminhando dentro da Crazz. É quando surge o primeiro foco de fogo, que tomou conta de todo o prédio, evidenciado que o bandido espalhou o combustível pelo cômodo. Quatro minutos depois, ele sai caminhando tranquilamente pela calçada e desaparece. Em questão de minutos, toda a memória da Crazz, construída ao longo de sete anos, foi resumida a um monte de ferros retorcidos, papéis e máquinas queimados. Os bombeiros chegaram rápido, mas nada puderam fazer, além de apagar as chamas.
Ainda nas primeiras horas da manhã, centenas de leitores do jornal, ouvintes da Difusora e seguidores do portal GCN encaminharam mensagens de solidariedade à direção e funcionários do GCN. O atentado foi repercutido pela imprensa regional e logo ganhou projeção nacional. Autoridades criticaram o ato criminoso e cobraram uma rápida resposta por parte da polícia. Márcio Aith, subsecretário de Comunicação do Governo de São Paulo, afirmou, em nome do governador Geraldo Alckmin (PSDB), que o ataque criminoso é intolerável. “Agride não apenas a empresa, seus colaboradores e a população da Franca, mas a liberdade de expressão e a tradição democrática do Estado de São Paulo. Esse crime, enfim, agride a todos nós”. Aith disse ser “testemunha da independência, da altivez e do jornalismo inovador exercido pelo grupo”. Garantiu todo empenho na elucidação do caso. “São Paulo não se intimidará, nem se calará diante desse ato. Não serão poupados esforços para identificar e prender os seus responsáveis, sejam eles quem forem”.
O secretário de Estado da Segurança Pública, Alexandre de Moraes, telefonou para Corrêa Neves Júnior, diretor-executivo do GCN. Disse que, além da violência propriamente dita, o crime é um atentado contra a liberdade de expressão, o que não se admite em nenhuma circunstância. Afirmou que a polícia já está trabalhando e que a Secretaria acompanhará as investigações.
Ricardo Pedreira, diretor-executivo da ANJ (Associação Nacional de Jornais) manifestou extrema preocupação com o incêndio criminoso. Disse que o fato de ser o segundo atentado em menos de seis meses, evidencia tentativas de intimidação às atividades jornalísticas do GCN. “Em sua longa trajetória de cem anos, o Comércio da Franca sempre se destacou como um jornal combativo e que trabalha em benefício dos cidadãos de sua cidade e região. Atentar contra um jornal é afronta ao direito dos cidadãos de serem livremente informados”. Completou que a ANJ espera que as autoridades policiais identifiquem com rapidez o culpado pela iniciativa criminosa e covarde, assim como seus mandantes, para sejam encaminhados à Justiça e recebam as devidas punições.
A equipe da Crazz retomou seus trabalhos na segunda-feira mesmo, no prédio do GCN. “A gente balança, mas não cai. Não é por conta de uma maluquice desta que vamos deixar de fazer o nosso serviço. Nada de ficar chorando, vamos trabalhar. Voltaremos melhores e mais fortes, podem acreditar”, finalizou Denise Silva.
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