O personagem desta entrevista dispensa apresentações. Cláudio Barcelos de Barcelos, ou, simplesmente, Caco Barcellos é o quarto jornalista mais premiado do País em todos os tempos. Somente José Hamilton Ribeiro, Eliane Brum e Míriam Leitão têm mais troféus na estante do que ele.
Especialista em jornalismo investigativo, foi correspondente internacional da Rede Globo por quase duas décadas. Morou na França, Estados Unidos e Inglaterra. Narrou a história de 20 guerras. Acredita ter feito a cobertura de cerca de 200 rebeliões em presídios. Onde há um conflito armado, lá está ele. Apresenta, edita e dirige o Profissão Repórter, um dos mais respeitados programas jornalísticos do País.
O jornalista, que já foi hippie e taxista em Porto Alegre (RS), também é escritor. Entre suas obras, destaca-se o livro Rota 66, publicação que denuncia a truculência da Polícia Militar de São Paulo e que o fez receber uma chuva de ameaças. Foi morar no exterior até a poeira baixar.
Caco Barcellos não aparenta ter 65 anos. Trabalha todos os dias nas ruas em busca de uma história para contar. Nas raras horas de folga, se distrai jogando futebol com amigos. Na quinta-feira, ele veio a Franca abrir o ciclo de palestras em comemoração ao centenário do Comércio. Veio sozinho, dirigindo seu carro. Chamou a atenção pela simplicidade e gentileza. Foi simpático com todos, tirou fotos, deu autógrafos.
Mesmo tendo ido dormir por volta das 2h30 da madrugada, estava de pé às 7 horas para dar esta entrevista exclusiva. No começo da tarde, já entrevistava mototaxistas em Capão Redondo, na periferia de São Paulo, para o seu programa.
Você começou a trabalhar com jornalismo há 42 anos. É uma vida dedicada à profissão de repórter?
Sim. E sempre na rua. Nunca saí da rua e acho maravilhoso cada dia que acordo e posso ir para a rua, onde aprendo muito. Quando você conhece uma pessoa, é uma oportunidade muito grande de aprendizado. Cada pessoa guarda consigo sempre uma grande história. Cabe ao interlocutor descobrir essa história. Alguns guardam para sempre e nunca revelam. Cabe à gente descobrir. Que tem uma grande história ali sempre tem.
Como é sua rotina?
Não tenho uma rotina como a dos trabalhadores comuns. Tenho uma rotina de repórter, que tem o privilégio de trabalhar numa empresa que me permite correr atrás da história onde a história estiver. Isto é maravilhoso. O que determina minha rotina são os acontecimentos. Todos os dias, há milhares de possibilidades de se correr atrás. A gente faz a escolha da história.
Você vai diariamente à sede da Globo ou tem a liberdade de trabalhar à distância?
Depende da história. Se a história me exige ir aos Estados Unidos em um deserto, por exemplo, ficamos dez dias fora e, evidentemente, não tem como ir à redação. Quando acaba o processo de captação de entrevista, de busca pela informação, voltamos para a redação e damos início ao processo de edição e direção. Estou mais na rua do que na redação.
Como é o desafio de mostrar os diferentes ângulos da mesma notícia?
É um desafio muito rico. Já é muito interessante você trabalhar com um grupo para fazer jornalismo como sempre fiz na televisão. Somos um grupo de nove repórteres, o que amplia nossa captação de informação. A gente oferece muito mais para o telespectador em cada história que a gente trabalha. Somos seis, sete, oito, nove atrás de uma mesma história com ângulos diferentes de forma simultânea, o que torna o trabalho mais interessante. Enquanto um ouve, digamos, o lado que acusa, outro está do lado que defende. É o que chamamos de olhares cruzados, as câmeras cruzadas. Se é uma história de desocupação de um prédio invadido, o que tem muito em São Paulo, e a tropa de choque vai fazer a retirada das pessoas, estaremos no portão do quartel aguardando a saída dos policiais. O outro fica atrás do dono do prédio que mandou a Justiça desocupar. Todo o processo formal da desocupação, estamos atrás também. O outro grupo pode grudar na imprensa, por exemplo. Evidentemente, a principal equipe estará dentro do prédio tomado para ver como será a invasão. Todas essas câmeras se cruzam. Esse é o trabalho ideal nosso. A gente busca sempre história que tem ação e cada um com olhar sobre a ação.
O que um jornalista em início de carreira deve fazer para chamar sua atenção e poder fazer parte do programa?
Mostrar o trabalho. A TV tem um sistema muito eficiente e interessante de caça de talentos, que se chamar “estagiar”. Você se inscreve no site e entra numa peneira, que escolhe, acho, 11 jornalistas por ano. Depois que ele passa pela peneira, que envolve mais de 20 mil candidatos, o jornalista fica um ano trabalhando nos diversos departamentos da emissora. A gente fica observando. Eles passam pelos programas e telejornais. No final desse ano, eles são avaliados por todos os líderes de cada programa. Com base nisto, a TV vai ficando com eles. Eu vejo se tem algum ali com toda a pinta de repórter que gosta da rua, que gosta deste sacrifício. Faço a seleção desta maneira. Também aceitamos DVDs, enfim, trabalhos audiovisuais, iniciativa própria de quem gosta de reportagem. Se temos a vaga, a gente chama.
Como é a experiência de trabalhar com os jornalistas aprendizes?
É uma experiência muito rica, sobretudo porque nosso processo é colaborativo. Cada um ajuda o outro. Eu participo das reportagens, vou para a rua também, e, muita vezes, o que eles trazem das ruas é muito mais rico do que o que eu trouxe. Não existe regra na reportagem. Existe dedicação, persistência e também sorte. Às vezes, você é persistente, mas não consegue.
O Caco Barcelos teve sorte ou competência para se tornar um dos principais jornalistas do País?
Acho que tive competência e dedicação. Sorte, muita. Acho também que a sorte acontece para quem trabalha muito. Se você não está lá, como é que a fonte vai te acontecer? Isto, é uma característica do programa. A gente trabalha muito. Ficamos muito tempo em uma história, dois meses em uma reportagem. Insistindo dois meses, um dia vai dar certo.
Como é a experiência de ser um corresponde internacional da Globo? Você tem noção do que isto representa para os jornalistas que estão do lado de cá e que têm este sonho?
Tenho noção, sim, pois também admiro quando vejo os colegas trabalhando, contando histórias. Não vejo muita diferença entre estar lá em Tóquio ou em Capão Redondo, onde estarei quando sair daqui. A história é interessante sem se vincular ao fator geográfico. Com sinceridade, o meu objetivo de sempre é fazer a matéria de amanhã. Tenho um grande medo de não conseguir. Por mais que eu tenha experiência, às vezes, acho quase impossível fazer a matéria para amanhã. Todos os dias, acordo pensando no que vou fazer amanhã. Gosto mais de trabalhar como correspondente itinerante, sem lugar fixo. O correspondente fixo fica refém dos acontecimentos daquele lugar. Livre, você vai atrás da história onde ela estiver.
Qual sua avaliação sobre o fluxo migratório dos refugiados por conta de conflitos?
É uma grande tragédia, inevitável isso neste século. Temos que repensar as formas de condução econômica no mundo. As coisas, hoje, têm reflexo imediato. Cada atitude de uma empresa se reflete rapidamente em vários lugares do mundo. O mundo não pode ficar dividido desta maneira como está. As concentrações de renda geram um cenário de instabilidade, de desarmonia muito grande. Antes, a gente acreditava que a globalização fosse reduzir a desigualdade social no mundo. Ela acirrou ainda mais. A massificação do desemprego, a diferença de renda são combustível para a instabilidade política. As ditaduras não vão conseguir mais sobreviver como sobreviviam. As pessoas têm acesso instantâneo às informações e ficam mais inquietas. Elas vão querer se deslocar se o lugar em que elas estão é desfavorável. Para nós, jornalistas, é um momento fascinante, pois esta incerteza gera enorme curiosidade. Para onde eles vão, o que vai dar isso?
O que achou de uma jornalista chutar refugiados?
Lamentável. Isto, não pode acontecer de jeito nenhum. Não podemos contar uma história a partir do nosso olhar no sentido da nossa realidade particular. Quando saio para rua, procuro deixar em casa minha ideologia, meu conceito, minha preferência religiosa. Temos que estar abertos para as ruas. Ninguém tem razão, ninguém tem culpa. Não é o jornalista que deve fazer o julgamento, emitir juízo de valor. Ele é observador, contador de história. As coisas têm que ser do jeito que são e não como eu quero.
Qual a diferença entre os grupos de extermínio que você retratou há 23 anos, no Rota 66, em relação aos grupos de matadores que agem atualmente?
A situação mudou para pior. A polícia ainda usa os métodos que os torturadores americanos ensinaram para os oficiais brasileiros. O livro retrata a abrangência de 1970 até 1992. Aquilo que eles faziam em 1970, continuam fazendo hoje: execução extrajudicial. Claro que há ações legitimas também com morte, que são corretas, mas grande parte é ilegal. A morte sempre poderia ser evitada, nunca se justifica, mas algumas são brutalmente ofensivas à nossa Constituição, que é a morte resultada da execução, como são as chacinas. As chacinas, hoje, são feitas por autoridades mascaradas. Antes, eram autoridades sem máscara. Mas hoje ainda tem autoridade sem máscara fazendo execução. Eles não estão se dando conta de que existem câmeras por todos os lugares e continuam fazendo as coisas como faziam em 1970. E as câmeras filmando. Vão lá, matam, pegam uma arma na viatura com numeração raspada, simulam um tiro, pegam uma porção de maconha e colocam no bolso. Desqualificam moralmente a vítima. O comunista de antes, hoje, é o traficante. Amanhã vai ser quem? Basta eles escolherem quem é o diabo da ocasião.
Recebe muitas ameaças de morte por conta das denúncias que faz?
Vou te pedir licença para não falar disto. Fiz um pacto com algumas pessoas para não contar.
Teme pela vida quando sai de casa?
Não. Geralmente, vou atrás da vítima da brutalidade, seja aquela praticada pela polícia ou por qualquer outro criminoso. As pessoas me recebem muito bem, me chamam para que eu conte suas histórias. A própria polícia me chama, não o comando, que nem me recebe, eles negam informação para o nosso programa. Mas tem policiais que discordam disto, que se envergonham e me chamam. As reportagens mais contundentes que fiz vieram dos próprios policiais, que têm vergonha de ter matadores em suas fileiras. Quando o trabalho é correto, as pessoas, mesmo as que foram denunciadas, te respeitam. Acredito que isto nos garanta uma vida mais tranquila e permite ter a cabeça erguida. É importante você não ir dormir com vergonha. Quero dormir em paz sem ter sido injusto com alguém. Posso ter errado, mas não tive intenção. É importante se dedicar para não errar.
Pretende continuar apurando histórias na rua até quando?
Até o último dia. Até o derradeiro, como diz Paulo Coelho. Espero que histórias continuem. Vou lamentar quando não puder contar mais histórias.
A vida do Caco Barcellos renderia uma boa pauta para o Profissão Repórter?
Não, minha vida é um tédio (risos). Trabalho, trabalho, trabalho, jogo futebol, trabalho, vou ao cinema, vou à praia, descanso, é simples pra caramba. A única coisa interessante da minha vida é correr atrás das histórias dos outros.
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