A Dilma colocou a gente de dieta


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ara economista, a crise atual enfrentada pelo Brasil vai piorar nos próximos meses e só melhorar em meados do ano que vem
ara economista, a crise atual enfrentada pelo Brasil vai piorar nos próximos meses e só melhorar em meados do ano que vem
Em 2015, o economista Ricardo Amorim foi eleito pela revista Forbes uma das 100 pessoas mais influentes do Brasil. Na área desde 1992, Ricardo é hoje um dos maiores consultores do mercado. Foi ele que, na última terça-feira, abriu o 3º Congresso Empresarial da Acif, em Franca. 
 
Para uma plateia lotada, Ricardo, que também é um dos apresentadores do Manhattan Connection, da Globo News, falou sobre as previsões para a economia brasileira e deu dicas preciosas de como vencer os desafios impostos pela crise. 
 
Foi antes de subir ao palco que ele atendeu o Comércio e fez uma análise do panorama econômico e político. Em sua opinião, a presidente Dilma Rousseff (PT) não conseguirá terminar seu segundo mandato e a crise ainda vai piorar nos próximos meses e só começa a melhorar em meados do ano que vem. 
 
Na semana passada, o governo anunciou um pacote de medidas para tentar reverter a crise econômica enfrentada pelo país. Qual sua análise sobre esse pacote? E mais, essas medidas são suficientes para a retomada da economia?
Há dois pontos que precisamos considerar. O primeiro é a efetivação das medidas anunciadas. Uma coisa que infelizmente o governo Dilma não tem mais é credibilidade. Pelo histórico, a nossa presidente perdeu o direito da dúvida, hoje não sabemos mais se o que eles anunciam de fato vai acontecer. O segundo ponto é que a maior parte deste pacote está concentrada no corte de gastos do governo. Até agora, o governo Dilma vinha falando que era necessário fazer sacrifícios, mas esses sacrifícios eram sempre só nossos (da população). Sempre brinco dizendo que o que o governo vem fazendo é o equivalente a dizer “eu estou acima do peso, mas quem vai entrar em regime é você e não eu”. A Dilma colocou a gente de dieta. Vamos pagar mais imposto, nossa vida vai ficar mais difícil. Mas o governo continua em uma boa. Mudar essa visão, como eles anunciaram, é o grande desafio. Se conseguirem de fato cortar os gastos na própria carne, vão retomar a confiança. Mas ainda não temos como saber se isso de fato vai acontecer. Temos de esperar. 
 
O governo afirma que este corte deve chegar à casa dos R$ 26 bilhões...
É o que eles anunciaram. Mas não detalharam nada. Não disseram efetivamente em que setores esses cortes acontecerão. Isso gera insegurança. Quem serão os impactados pelos cortes? Será que o governo realmente vai diminuir seus gastos? Eles não anunciaram onde serão feitos os cortes, como, nós, economistas e a população, vamos conferir se realmente houve essa diminuição? 
 
Mas já há indicativos...
Sei onde o governo deveria cortar, mas não sei onde eles de fato vão cortar. Sempre que falamos em cortes no próprio governo temos de lembrar que eles vêm acompanhados de uma forte pressão política no sentido contrário. A sociedade como um todo se beneficia quando o governo corta seus gastos, mas o grupo atingido sai perdendo. E quem sai perdendo chia. A população brasileira não tem o costume de se posicionar e, por isso, raramente os cortes anunciados se efetivam. Nós estamos passando por uma crise tão grave que, pela primeira vez, estamos vendo a sociedade protestar. Isso é o que levou a essa mudança na postura do governo. Eles sabem que se não fizerem o que tem de ser feito, as coisas vão piorar ainda mais e, mais para frente, eles acabarão sendo obrigados a fazer ou o governo vai cair. E quem entrar no lugar, fará as mudanças necessárias. Que esses cortes vão acabar acontecendo, não tenho dúvidas. O que não consigo dizer é se isso será efetivado agora ou pelo próximo governo. 
 
Muitas medidas anunciadas neste pacote dependem ainda da aprovação do Congresso. E como você mesmo citou, a sustentação do governo Dilma, até mesmo na base de apoio, vive uma crise. Neste cenário, você acredita que as medidas, algumas bem impopulares, vão passar?
Acho muito difícil. Porque hoje, é bom lembrar, temos 40 congressistas sendo investigados por suspeitas de corrupção, entre eles o presidente da Câmara e do Senado, a própria presidente e o ex-presidente (Lula). Cada um tentando salvar o seu pescoço. Neste contexto, a briga entre eles está ficando cada vez mais forte. Isso faz com que seja difícil que um Congresso, que quer mais é ver o governo dançar, jogue a favor. Será muito complicado obter essas aprovações. O mais provável é que o governo não consiga fazer o que prometeu. E se isso se concretizar, a crise continuará grande. Os empresário continuarão não investido e o resultado será o aumento do desemprego e, com ele, o da impopularidade da Dilma. Aí, a sustentabilidade do governo vai embora. 
 
Um dos pontos mais polêmicos deste novo pacote é a discussão em torno da volta da cobrança da CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentações Financeiras), o antigo imposto do cheque...
Isso é péssimo em todos os sentidos. Sempre temos que ter em mente que o dinheiro que vai para o pagamento de imposto é um dinheiro que não vai para consumo, não movimenta a economia. São recursos que saem do bolso das pessoas e das empresas, o que diminui o poder de compra. Para piorar, a CPMF é como um imposto em cadeia, que aumenta o preço de tudo. Nas cadeias de produção longa, como por exemplo, a dos veículos, isso fica ainda mais evidente, maior o impacto no preço. Isso gera inflação, que, por sua vez, força o governo a subir a taxa de juros. Em outras palavras, definitivamente, essa não é a melhor solução. 
 
Outra medida é o corte de incentivo aos exportadores, como o Reintegra, que diminui a carga tributária para os empresários. Que análise você faz dessa decisão do governo?
Também não acho que tenha sido uma boa escolha. O melhor corte que o governo pode fazer é nos seus gastos. Ele gasta demais com a manutenção da própria máquina, principalmente com as aposentadorias do funcionalismo público. O Brasil teve um déficit no ano passado de quase R$ 70 bilhões para pagar a aposentadoria de 950 mil servidores. Só para você ter uma ideia, na Previdência, que também trabalha com déficit, o valor para 29 milhões de aposentadorias foi mais ou menos o mesmo. Na prática, o que temos é um regime previdenciário dividido entre os cidadãos de primeira classe, que são os servidores, e o resto, que somos nós, trabalhadores comuns. Isso é insustentável. Essa deveria ser a primeira preocupação do governo. Mexer nestas aposentadorias e implantar um regime igualitário. Só com isso o resultado seria muito maior do que o total de cortes anunciados pelo governo. Só esse ponto já resolveria o problema. O que falta é coragem política para fazer isso. 
 
Diante de tantos desafios e com um panorama tão sombrio, como a economia brasileira deve fechar o ano?
Mal. Pior do que começou e pior do que já está. O agravamento da crise política, que tem se mostrado inevitável, aumenta as tensões, as incertezas, o que leva a economia a piorar. A contrapartida é que, a partir do ano que vem, a economia deve ter um desempenho melhor do que a maioria dos especialistas espera. Principalmente na segunda metade do ano. Em 2015, estamos sendo obrigados a lidar com tudo que foi desarranjado durante o primeiro mandato da Dilma. Precisamos resolver três problemas centrais: as contas externas que têm de melhorar, a inflação e o corte das contas públicas. Acho que, com o dólar tão alto as contas externas vão melhorar, porque a tendência é a exportação subir. Com a recessão, o poder de compra cai. Sem consumo, a inflação também encolhe. O terceiro e último problema são as contas públicas, nas quais o governo sinalizou, pelo menos, o interesse em começar a mexer. Então acredito que o ano que vem será melhor. 
 
Mas os resultados já começarão a aparecer em 2016?
 Acho que sim. Porque a queda da inflação vai criar um espaço também para a queda dos juros. Se tivermos vencido essa crise política e começarmos o ajuste fiscal, teremos uma volta do crédito e da confiança. O que vai se refletir na volta dos investimentos e na geração de emprego. A roda deve passar a girar de forma positiva. Mas é preciso lembrar que para que isso aconteça existem duas hipóteses: a primeira é a Dilma conseguir efetivar seu pacote. A outra é ela não conseguir e outro governo fazer, o que é mais provável. Em um caso ou no outro, o que não acredito é que essa crise política e fiscal se arraste por mais um ano. Se isso acontecer, a economia brasileira vai ficar um caos e o desemprego altíssimo. Acho que antes disso a sociedade força uma mudança no comando político do país. 
 
Para o empresário que está assustado com esta realidade e com o atual cenário, que dicas você pode dar para que ele sobreviva a este momento delicado?
O que os empresários precisam ter em mente é que esta crise vai passar. Muitas oportunidades de negócios surgem justamente em momentos de crise e outras por causa da crise. Um exemplo são as exportações. Por causa da crise, a cotação do dólar que há quatro anos não passava dos R$ 2 agora chega a R$ 4, é um ótimo incentivo ao setor exportador. Na crise, as empresas são forçadas a repensar seus modelos de negócio e produção. Quando a coisa está difícil, somos obrigados a fazer ajustes. Quem consegue perceber e se adaptar à nova realidade costuma não só sobreviver, mas sair da crise mais forte do que entrou. Falando assim, parece que é só uma teoria. Mas não é. Tem empresas como a Uber (multinacional americana de transporte público urbano, que oferece um serviço semelhante ao dos táxis tradicionais, mas em rede) que está valendo hoje R$ 200 bilhões e que nasceu da crise da economia americana em 2009. 

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