Cidadela


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Mônica nasceu no interior de São Paulo, mas viveu o florescer de sua juventude no Grande ABC. Conhecida pelo corpo esbelto e, sobretudo, por sua brandura celestial, conquistou tudo que desejava nesta vida. Teve dois filhos maravilhosos, e um marido que muito amou. Mônica foi prestativa com a sua família, nunca esquecia aniversários, e muito precocemente conquistou sua independência financeira. Costurava toalhas para os  sobrinhos e confeccionava colares para o próprio uso, tudo com o maior desvelo do mundo. Mônica foi minha tia favorita durante toda minha infância e uma de minhas maiores influências na maturidade, mas aprendi a admirá-la ainda mais depois que alçou voo da Terra e foi pousar nas estrelas.
 
Cotidianamente penso no vazio que ela deixou, e com uma dose intensa de egoísmo acredito que as pessoas que tanto amamos, e nos despertam intensa felicidade, nunca deveriam deixar de viver. Depois que ela se foi, muita coisa aconteceu, desde semanas tempestuosas até nirvanas de alegria. Algumas vezes, queria tanto que ela estivesse aqui, que me pego imitando suas mais características feições, ou presenteando seus filhos com embrulhos que sei que ela possivelmente me daria.
 
Pensando nisso, dia desses, no habitual caminho do trabalho, meu ônibus parou no semáforo. Olhei para os lados na tentativa de colocar sentido numa segunda-feira mecânica, e vi um canário-da-terra pousar no arame farpado. Aquela ave pequena e muito frágil tem cor de alegria e de esperança, mas quase ninguém nota. Prezo pelos elementos da natureza, e por essa razão às vezes recorro à internet para escutar um pouco de seu canto, pois nos espaços urbanos isso é muito raro.  A tentativa é  de estancar a saudade que sinto de casa e de minha família.
 
O canário-da-terra é um pássaro de estrutura  frágil e voo suave, e pousado sobre o arame deveria ser o símbolo da ataraxia, que para alguns pensadores é aquele estado caracterizado pela completa ausência de perturbações ou inquietações mentais.  
 
Através do pássaro lembro-me de minha tia Mônica. Ela sofreu de câncer e enfrentou todos os desafios terrenos para continuar viva. Era o canário pousado no fio de arame. 
 
Às vezes, mesmo que ninguém note, os desafios estão na curva de nossos olhos, e apenas a fugaz busca pela felicidade e pela virtude, apesar dos mais árduos desafios, é o que nos define. Assim, não é o pouso no arame que nos delimita, e sim, nosso voo final.
 
 
Isabel Fogaça, professora
 

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