Um dos oito falsos médicos que atuaram em Franca prestou depoimento à polícia no último dia 24 de agosto. Bertino Rumarco da Costa, que se passava por Naas Adonais Carvalho de Assis, é apontado como um dos responsáveis pelo aliciamento de falsários para trabalhar em hospitais e prontos-socorros do interior de São Paulo. Em seu depoimento, negou fazer parte da quadrilha e disse que só trabalhou como falso médico porque não conseguiu revalidar o diploma de medicina que obteve na Universidade de Cosmo, na Bolívia.
Bertino disse que, para conseguir trabalhar, ele roubou a identidade de um amigo. “O Naas frequentava minha casa. Éramos amigos de faculdade, chegamos a morar juntos na Bolívia. Ele conseguiu revalidar o diploma. Eu não. Um dia ele veio me visitar. Aproveitei que ele estava dormindo e tirei uma foto do CRM dele, que depois usei para poder trabalhar”.
O falso médico disse que, como os contatos com as empresas eram feitos apenas por telefone, ele não enfrentou problemas. “Enviei a foto do CRM do Naas. Nunca me pediram para comprovar a documentação ou apresentar a carteira do CRM”.
Ele disse que seu primeiro trabalho como falso médico foi pela empresa DIB Serviços Médicos. “Soube que eles contratavam médicos. Então liguei me passando pelo Naas. Eles me pediram o CRM e enviei a foto da carteira do Naas. Comecei a trabalhar e ninguém me pediu comprovação de nada”.
Em seguida, ele foi contratado pelo ICV (Instituto Ciências da Vida), por meio do qual trabalhou em Franca. “O ICV assumiu o contrato que era da DIB em Várzea Paulista. Me convidaram a continuar e continuei”.
Para Franca, ele teria vindo em meados de 2014. “Me dirigi à recepção. Me apresentei como médico do ICV e me mostraram o consultório. Não me pediram documentação nenhuma. Nem o ICV nem o pronto-socorro”, disse ele.
Em Franca ele passou a atender no Pronto-socorro Infantil e a receber o valor de R$ 1,2 mil por cada plantão de 12 horas. “Era o mais alto pago até então. Eu já tinha recebido R$ 950 em Nova Odessa e passei a ganhar R$ 1,2 mil em Franca”. Segundo Bertino, os valores não eram pagos diretamente a ele. “O dinheiro era depositado na conta da empresa de um dos coordenadores do ICV e ele é quem me pagava com cheque ou dinheiro”.
Bertino contou que saiu de Franca em outubro de 2014. “O coordenador do ICV me ligou dizendo que sabia que eu não tinha o CRM. Que além de mim tinham outros na mesma situação e que era inviável a gente continuar trabalhando nos plantões. Nem recebi meu último salário”.
Bertino negou que seja um aliciador. Negou também ter pago ao verdadeiro Naas para que pudesse usar seu nome. “Ele não sabia de nada”.
Bertino foi preso no dia 31 de julho, em sua casa, em Caratinga, Minas Gerais. Depois foi transferido para São Roque, onde ficou preso na Cadeia de Capela do Alto. Nesta semana, a juíza Carla Cartuzzo acatou o pedido de liberdade provisória mediante o pagamento de R$ 7,8 mil. (leia mais sobre o caso dos médicos falsos, na página A-15).
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