Fernanda Ueda é uma mulher baixinha com lindos olhos verdes. Seu nome já denuncia sua ascendência oriental. Sua fala mansa e seu jeito simples nem de longe revelam sua profissão. Há 18 anos, Fernanda é delegada de Polícia. Atualmente responde, junto com a colega Simona Ricci, pela Delegacia de Mairinque, na região de Sorocaba.
Seu trabalho ganhou repercussão no início de junho quando ela e sua equipe desmascararam a ação de uma quadrilha de falsos médicos que atuava em pelo menos sete cidades do interior paulista. Entre elas, Franca. Fernanda e Simona são as responsáveis pela investigação que culminou com a prisão de doze acusados. Hoje a maioria permanece atrás das grades , aguardando julgamento.
Foi na Delegacia Seccional de Sorocaba, depois da reunião de definiu a formação de uma força tarefa para agilizar as investigações sobre a ação dos falsários, que Fernanda recebeu o Comércio.
Na entrevista, ela conta como começaram as investigações e faz revelações como, por exemplo, o fato de os falsos médicos presos não terem conseguido comprovar qualquer formação em medicina, seja fora ou dentro do Brasil. Também afirma que as investigações irão, sim, apurar a conduta dos agentes públicos e das empresas envolvidas.
Como começaram as investigações sobre os falsos médicos em cidades de São Paulo?
Começaram em Alumínio, aqui na região de Mairinque. Uma médica que se apresentava como Cibele Lemos faltou a um plantão no PS da cidade sem avisar, o que é proibido pelo Código de Ética Médica. A direção da unidade abriru uma sindicância contra a profissional. Ao conferir os dados apresentados por ela no site do Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo) perceberam que a foto que constava do site não era a da pessoa que estava trabalhando. Registraram queixa na polícia e procuraram a delegacia de Mairinque. Foi quando começamos as investigações. A mulher que faltou no plantão, na verdade, era Vilka de Souza.
E como chegaram aos outros falsos médicos?
Nos depoimentos a respeito do caso da Vilka, alguns enfermeiros disseram que também desconfiavam de outros profissionais cuja postura não era compatível com a de um médico. Eles tinham atitudes que não eram típicas de médicos e também eram bem próximos da Vilka. Conferimos seus nomes no site do Cremesp e percebemos que também não batiam com as fotos registradas. Nas investigações, descobrimos que dois deles moravam em São Paulo e fomos até lá para conversarmos. Quando os encontramos, eles apresentaram as carteiras falsas do Conselho de Medicina. Eram o Pablo Mussolin, que usava o nome de Pablo Galvão, e Natani Oliveira, que se passava por Natália Mejias de Oliveira. Eles foram presos em flagrante por uso de documento falso e, pelos depoimentos , acabamos chegando aos demais.
Quantos falsos médicos já foram identificados pela polícia?
Aqui na região de Mairinque, Alumínio e São Roque, foram cinco: Pablo Mussolin, Vilka Souza, Natani Oliveira, Ricardo Nassif e Jaime Ricardo Chumacero. Em Franca, além do Pablo, foram outros sete, cujas verdadeiras identidades ainda estamos apurando. Já identificamos pelo menos quatro destes sete, mas ainda faltam localizar alguns dos quais já temos informações sobre onde estariam.
É possível que este número cresça?
Claro. Estamos no início das investigações. Temos muitos pontos a esclarecer. Inclusive, uma das linhas de trabalho da polícia será verificar se os criminosos identificados na região de Mairinque não atuaram em Franca, mas com outros nomes falsos. E vice-versa. Essas respostas só teremos com o andar dos trabalhos que, no caso de Franca, passaram a ser comandados pelo delegado Luciano Henrique Cintra.
Em que momento da investigação se chegou ao ICV (Instituto Ciências da Vida) que atuou no pronto-socorro de Franca?
Os primeiros falsos médicos identificados trabalhavam para uma outra empresa de serviços médicos, a Innova, que era contratada de Alumínio, São Roque e Mairinque. Mas aqui em Mairinque, ela tinha terminado seu contrato com a prefeitura em abril deste ano. O ICV foi a empresa que a sucedeu no contrato. Então, aqui em Mairinque, os falsos médicos tinham contrato com o ICV. Ao analisarmos a documentação do instituto, vimos que ele também prestava serviços em Franca, foi quando começamos a identificar os falsos médicos da sua cidade.
Até o momento, o que é possível dizer sobre a participação do ICV no esquema montado pelos falsários? É possível afirmar que a empresa sabia que estava contratando falsos médicos?
Dentro de alguns depoimentos, testemunhas afirmam que a empresa tinha, sim, conhecimento da existência destes falsos médicos prestando serviço tanto em Mairinque quanto em Franca. Mas quem vai apurar exatamente o que aconteceu e conseguir as provas será a Polícia Civil em Franca. Montamos uma força-tarefa de colaboração e essa parte das investigações ficou a cargo do delegado Luciano Henrique. Já cedemos cópias do que conseguimos apurar até agora e o trabalho vai continuar por lá.
Pelo que já foi apurado, esses falsos médicos agiram de forma independente ou realmente se uniram para conseguir prestar serviços?
Isso neste momento ainda não conseguimos responder. Precisamos de um pouco mais de tempo para descobrir qual era, de fato, a dinâmica. O que já concluímos é que eles sabiam uns dos outros. O Pablo, por exemplo, sabia que o Bertino, a Vilka e a Natani não tinham CRM e também estavam trabalhando ilegalmente. Mas ainda não conseguimos comprovar se havia uma articulação entre eles. Em seu depoimento, Pablo afirma que o elo de ligação de todos seria o Bertino. Mas o Bertino nega. Então, não temos ainda uma prova cabal de que eram articulados. Apenas suspeitas. Precisamos de mais tempo e investigação para dizer se há um organograma da associação deles, para saber se há esse elo de ligação e se, de fato, é o Bertino e qual a participação dos demais e até do ICV.
E sobre o envolvimento dos agentes públicos, existe alguma comprovação? Em Franca, o que já sabemos é que os falsos médicos atuaram sem qualquer fiscalização, seja por parte do próprio ICV ou da Prefeitura Municipal.
Ainda é cedo para tirarmos qualquer tipo de conclusão a esse respeito. O que posso dizer é que ainda vai demorar para que as investigações cheguem ao nível dos agentes políticos. Temos que ser criteriosos e agir com calma na apuração dos fatos. Começamos identificando os falsos médicos, depois passaremos a investigar a participação das empresas, quais as pessoas dessas empresas que por ventura podem ter envolvimento direto com o crime e o caminho do dinheiro pago a esses falsários. Só depois é que poderemos analisar a conduta dos agentes políticos. Para chegar aos políticos, primeiro precisamos comprovar a ilicitude da empresa e, depois, em um outro momento, que essa mesma empresa teve alguma relação espúria com o agente público, seja no favorecimento em uma licitação, em uma fraude documental ou até no pagamento de propina. Não conseguimos ir direto dos falsos médicos para os agentes políticos. É preciso ir avançando nas investigações.
Já dá para saber em quantas cidades os falsos médicos atuaram ao todo?
O que sabemos hoje é que cada um deles atuou em locais diversos, alguns nas mesmas cidades, mas em períodos diferentes. Estamos investigando Mairinque, São Roque, Alumínio, Várzea Paulista, Vargem Grande do Sul, Franca, Nova Odessa e Jundiaí. Mas podem ser muitas mais.
Muitas mais? Então é possível que ainda hoje existam falsos médicos atuando em hospitais do interior do Estado?
Não descartamos essa possibilidade. Até porque o que constatamos na nossa investigação é a total falta de fiscalização dessas empresas e desses profissionais. Os critérios pelos quais esses profissionais são contratados são extremamente temerários. As contratações, na maior parte das vezes, são feitas apenas por ligação telefônica ou pelas redes sociais. Não existem regras. Ninguém pede documento algum. Ninguém checa informação alguma. Eles simplesmente chegam aos hospitais ou prontos-socorros se apresentam dizendo “sou fulano de tal e vim dar plantão” e são encaminhados aos consultórios sem ter sequer que apresentar a carteira de identidade.
Uma informação que também tem sido repetida é que essas pessoas que atuavam como médicos, usando os nomes de profissionais regularmente registrados, têm formação médica em outros países, como por exemplo a Bolívia. Isso é verdade?
Não. Não é. Não conseguimos comprovar que os falsos médicos já identificados tenham qualquer tipo de formação em curso superior de medicina, ainda que em outros países. Acreditamos que alguns, de fato, não tenham formação. Um exemplo é a Vilka de Souza, que se passava por Cibele Lemos. Ela ainda está foragida, mas até onde conseguimos apurar, ela tem um curso técnico de enfermagem feito no Paraguai. Ainda não confirmamos essa informação. O Pablo Mussolin também apresentou um diploma de medicina, mas ele responde, isso é fato, a um processo na Justiça Federal por uso de diploma falso.
Em relação ao médicos verdadeiros que tiveram seus nomes e números de registro usados pelos falsários, há a suspeita de que eles possam ter “alugado” seus dados. Isso é verdade?
Não. Pelo menos no caso da maioria deles. Temos uns três médicos verdadeiros sob suspeita, mas os demais, de fato, foram vítimas. Não sabiam que seus nomes estavam sendo usados de forma ilegal.
Em relação ao pagamento desses falsários, como era feito, já que eles usavam o nome de outras pessoas?
Ainda não apuramos a forma de pagamento do ICV para os médicos e, agora, essa parte ficará com o pessoal de Franca. O que já comprovamos é que a Prefeitura de Franca estava fazendo os repasses ao ICV regularmente. Agora o repasse da empresa para os médicos ainda não analisamos. No caso da Innova, os pagamentos eram feitos em contas de empresas abertas pelos médicos em seus próprios nomes. Como os falsos não podiam ter empresas, já que usavam documentos de outras pessoas, pediam aos colegas para que a empresa fizesse o deposito dos valores nas contas deles. Havia vezes também em que o pagamento era feito em dinheiro diretamente ao falso médico.
A polícia já tem ideia de quanto os falsos médicos receberam trabalhando ilegalmente?
Em Franca, que foi o polo onde um maior número de falsos médicos trabalhou, ainda não é possível saber. Aqui na nossa região, em que cinco deles trabalharam, acreditamos que o montante chegue perto do R$ 1 milhão.
Essas pessoas que trabalharam como falsos médicos poderão responder por quais crimes?
Os cinco médicos que atuaram aqui na região já foram denunciados à Justiça. Três permanecem presos. A Vilka está foragida e o Bertino tem liberdade provisória. Eles estão respondendo por exercício ilegal de medicina, falsidade ideológica, uso de documento falso e associação criminosa. Os demais deverão ser investigados pelo pessoal de Franca e, se comprovada a conduta criminosa, também poderão responder pelos mesmos crimes.
Em Franca, pelo menos três pessoas morreram depois de serem atendidas em algum momento por um desses falsos médicos. A polícia deve investigar também se houve o crime de homicídio?
Como agora a investigação foi desmembrada, o pessoal de Franca é que decidirá sobre isso. Aqui, em Mairinque, estamos avaliando se entre a morte e a conduta do falso profissional existe um nexo causal, ou seja, uma relação direta entre causa e efeito. Se conseguirmos provar isso, responderão, sim, por homicídio.
Para terminar, existe um prazo para a conclusão das investigação sobre o caso?
Não. Esse trabalho será longo e deverá durar enquanto encontrarmos condutas e fatos a serem investigados. Não tenho como fazer qualquer previsão a respeito.
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