Disse-me leitora contumaz destes meus textos de sábado, que admira meu esforço para continuar falando de valores, virtudes, cidadania e ética que aprendi em família lá atrás, neste tempo em que quase todos se tornam distantes do outro, e de si próprios. Imersos na tecnologia, a comida esfria sobre a mesa, a compostura física desaba — a medicina já reporta problemas de coluna e articulações com possível origem no uso continuado do celular. Hoje, ao invés de falar diretamente com alguém, fala-se através de tecnologia, mesmo que os interlocutores estejam a centímetros.
A continuar como vai, essa nova comunicação humana remeterá o homem moderno, barba por fazer e olhar perdido, a grunir numa caverna escura à única companhia que vai lhe restar, o celular. Minha leitora também disse que espera que eu ‘não canse. Sonho com o dia em que tecnologia seja reservada apenas a nos servir, e possamos redescobrir o prazer do contato pessoal’.
Em resumo, ela fala de informação e de pele. Quem tem informação, tem calor, e lidera. Quem não tem, é frio, liderado. É com os liderados que os que desgraçam este país têm compromisso. A tecnologia anestesia e nos torna distantes com o que é verdadeiramente importante. O país que hoje temos é reflexo de tecnologia que usamos mal. É, então, o país que admitimos.
Tornamo-nos guerreiros de terceiros, de artistas, políticos e partidos, times de futebol. Deixamos nossas causas e desejos para lá. Tecnologia mal utilizada nos leva a julgar que temos milhares de amigos, gente que lutará por nós e nossas crenças, mas não. Estamos cada vez mais sozinhos, perdendo nossa capacidade de organização. Anestesiados, esquecemo-nos de avaliar aqueles a quem delegamos poder.
Se há quem diz que sabe em quem vota, mente. Teste. Pesquise, dentre suas ‘amizades da grande rede’ ou amizades reais de carne e osso, quem segue a atuação daquele em quem votou. Se for honesto, dirá que nunca fiscalizou ninguém! É aí que está. A culpa pelas agruras que nos penalizam tem origem na má qualidade de nossos votos e na ‘vida boa’ que damos a quem ‘contratamos’ para nos defender e a nossos direitos. A maioria de nós escolhe um número, vai à urna e, literalmente, o excreta lá.
Reforço, para não restar dúvida: esses, aos quais damos procuração para fazer leis que blindam só a eles; ou que as executam sem qualquer comprometimento com ninguém, a não ser consigo próprios; ou que as julgam apenas para fazer cumprir sem contestar já que ‘não é o papel que lhes cabe’, são responsáveis pelo país impune e injusto que hoje temos, mas a origem de tudo, está em nossas escolhas descuidadas. Somos otários e somos burros, já que além de os escolher, também pagamos pelos dinheiros que esses fazem desaparecer em bolsos espúrios de terceiros e em seus próprios e criminosos bolsos.
Quem é sério, e está cansado, tem que sair da posição de conforto. Tem que somar forças com os que não suportam mais ‘ver triunfar as nulidades; prosperar a desonra, crescer a injustiça; agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus’, para não ser necessário ‘desanimar-se da virtude, rir-se da honra, ter vergonha de ser honesto’, como o jurista Rui Barbosa gritou quando, em seu copo, caiu a gota que fez transbordar sua ira. Vivo fosse, tenho certeza, continuaria gritando. Respeitados os tempos históricos, o juiz Sérgio Moro e uma pequena e determinada parcela do poder judiciário nacional refletem Rui, e fazem crer que sempre é tempo de lutar por decência e seriedade.
O que me move é o desejo genuíno de continuar, certo de que os donos de ouvidos atentos haverão de ouvir e, corajosamente, se disporão a fazer sua parte para colocar a correr os que de nós riem e debocham. Rui disse que vale a pena: ‘maior que a tristeza de não haver vencido é a vergonha de não ter lutado!’
Luiz Neto
jornalista, editor de Opinião - luizneto@comerciodafranca.com.br
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