O discurso ainda contraria a prática


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No mesmo dia em que o governo deixou claro que irá criar mais uma faixa no Imposto de Renda para fazer caixa, tentar cumprir a meta fiscal e rechear o orçamento do ano que vem - que, a princípio, apresenta um déficit superior a R$ 30 bilhões - e o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB), da base de apoio do governo, reagiu, dizendo que antes de aumentar impostos é preciso cortar gastos, as notícias procedentes de Brasília mostram que, mais uma vez, o discurso não contempla as ações. Enquanto a crise financeira assombra os brasileiros, o Senado renova a frota de carros utilizados pelos parlamentares: até sexta-feira, 81 senadores passarão a se locomover em modelos Nissan Sentra zero quilômetro, e não mais nos Renault Fluence, com que estão há dois anos. Segundo o jornal Folha de S. Paulo, a troca está prevista em contrato com a empresa LM Transporte, que recebeu um reajuste de 6,5%.
 
Trata-se de uma atitude incongruente com a situação atual do País, onde explode o desemprego e, consequentemente, a inadimplência. Os números registrados pela indústria automobilística mostram que o trabalhador brasileiro não está conseguindo trocar seus veículos por outros zero quilômetro, muito pelo contrário: carros de maior luxo estão sendo substituídos por outros mais antigos e econômicos, diante do aperto do cinto aplicado à maioria da população. Enquanto o governo federal busca uma forma de atacar ainda mais os bolsos dos brasileiros para cobrir a sua própria incompetência, os senadores recebem carros novos que custarão mais R$ 2,3 milhões aos cofres públicos. No País, poucos trabalhadores brasileiros têm este tipo de mordomia: cada um precisa prover o próprio transporte. Mas não é isso o que acontece com senadores e deputados, que têm salários considerados altamente vantajosos.
 
Como se pode ver, o discurso de Renan Calheiros contraria a prática. A insensibilidade que move aqueles eleitos para representar o brasileiro no Congresso e demais casas legislativas do País é patente. Até agora, não houve qualquer tentativa dos parlamentares em reduzir parte dos benefícios que não encontram paralelo em nenhum outro País, num esforço capaz de permitir o controle das contas públicas. Assim dariam mostras de desprendimento e interesse público, tirando dos ombros de empresários e trabalhadores um grande peso. Por isso, o brasileiro já não confia mais na classe política e precisa mostrar um pouco mais de interesse em seus próprios destinos, mostrando nas urnas que não está satisfeito e exige mudanças. Só assim, conseguirá ser ouvido e ter os seus anseios e reivindicações atendidos. Do contrário, continuará sendo o primeiro a ser cobrado e o último a ser escutado, como acontece agora.
 
 
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