‘Nunca me pediram documento algum’, diz médico do ICV


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Vereador Márcio do Flórida tenta convencer médico a ficar no plenário; após muita conversa, ele aceitou prestar depoimento
Vereador Márcio do Flórida tenta convencer médico a ficar no plenário; após muita conversa, ele aceitou prestar depoimento
O médico Fernando Antônio Cerqueira Machado Filho foi o primeiro profissional ligado ao ICV (Instituto Ciências da Vida) a prestar depoimento na CEI (Comissão Especial de Inquérito) aberta pela Câmara Municipal para investigar o contrato assinado entre a Prefeitura e o instituto que contratou pelo menos oito falsos médicos para atuar no Pronto-socorro “Álvaro Azzuz”. 
 
Fernando compareceu na condição de testemunha para auxiliar os vereadores a esclarecerem algumas dúvidas sobre o funcionamento do ICV em Franca. Fernando foi um dos primeiros médicos contratados para atuar na cidade e ficou no ICV até o último dia 7 de agosto. 
 
Antes de seu depoimento começar, houve tumultos e bate-boca. Primeiro, seu advogado, Márcio Sayed, não concordou com a presença da imprensa para acompanhar os trabalhos da CEI e ameaçou levar Fernando embora caso a imprensa permanecesse no local. Convencido pelo vereador e relator da CEI, o delegado Daniel Radaeli (PMDB), Márcio acabou cedendo e disse que seu cliente iria responder as perguntas dos vereadores. 
 
O médico foi, então, chamado a depor. Márcio Sayed quis se sentar ao lado de seu cliente para acompanhar as respostas. O presidente da CEI, vereador Márcio do Flórida (PT) não permitiu. Foi o que bastou para que o advogado começasse a retirar seu cliente do plenário da Câmara. “Vamos embora. Não vamos mais colaborar”. 
 
Nervoso, Márcio segurou o braço de Fernando na tentativa de convencê-lo a ficar. Para o seu advogado, o ato configurava uma ‘ameaça’. Os ânimos se acirraram. Advogado e vereador se alteraram. A confusão só terminou com a intervenção de Radaeli. Com os ânimos mais calmos, o médico finalmente começou a depor. 
 
Fernando contou que trabalhou cerca de um ano para o ICV em Franca. Ele disse que veio para cá a convite de um amigo e que não foi cobrada nenhuma documentação. “Liguei para a empresa dizendo que estava interessado em fazer um plantão. Eles me disseram para vir. Não me pediram nada. Nem o ICV nem o pessoal do Pronto-socorro”. 
 
Depois do primeiro plantão, Fernando foi convidado a permanecer na cidade. “Atuei uns dois, três meses sem ter de apresentar documentação alguma. Só depois é que o ICV pediu meus documentos para fazer os pagamentos.”
 
Por parte da Prefeitura, ele disse que neste um ano que passou no PS nunca lhe pediram absolutamente nada. “Ninguém da Prefeitura fiscalizou o meu trabalho ou me pediu documentos. Nada.”
 
Ele também contou que conheceu boa parte dos falsários identificados em Franca. “Lembro deles no plantão. Nunca desconfiei de nada.” Fernando também disse que chegou a emprestar a conta de sua empresa para que um dos falsários pudesse receber seu salário. “Ele não tinha CNPJ e pediu para que os valores fossem depositados para a minha empresa. Eu não vi problemas na hora e deixei”. Segundo o médico, os pagamentos eram feitos do ICV para as empresas dos médicos cadastrados. “Eu emitia uma nota fiscal em nome da minha empresa e eles depositavam o dinheiro”. 
 
Ele também confirmou a falta de controle das escalas médicas. “Não tinha ninguém que fazia isso. Éramos nós, médicos, que nos acertávamos para organizar quando cada um estaria de plantão”. Segundo Fernando, quando havia a necessidade de trocas, também não eram feitos registros. “A gente só comunicava algum dos colegas. Não precisava informar nada a ninguém”. 
 
Sobre a fiscalização a respeito dos atendimentos ou do cumprimento de horários, Fernando disse que não havia nenhum controle por parte da Prefeitura. “Só preenchíamos uma folha para o ICV”. 
 
Ele disse que também durante o período em que trabalhou no PS de Franca recebia cerca de R$ 1,5 mil por plantão e que várias vezes seu pagamento atrasou. “Era comum. Inclusive, o meu último pagamento ainda não foi depositado”. 
 
Ele ainda afirmou que, por diversas vezes, trabalhou dias seguidos, sem intervalos. “Cheguei a trabalhar três dias direto. Dormia só nos períodos em que não havia pacientes”. 
 
Fernando disse que deixou o ICV por conta do clima que ficou depois da descoberta dos falsários. “As pessoas ficaram muito assustadas. No atendimento, muitas vezes, nos exigiam a apresentação do CRM. Era um clima muito difícil”. 
 
Próximos
Os depoimentos na CEI dos Falsários continuam nesta sexta-feira. Deve depor o coordenador de Compras da Prefeitura, Marcelo Henrique Rodrigues, para esclarecer como se deu a contratação do ICV. 

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