Na infância, o mundo em volta de Guilherme Batista Silva se transformou em vultos e flashes de luz. O francano, de 20 anos, nasceu com a doença chamada Stargardt, que é degenerativa e afeta a visão. O problema foi descoberto aos oito anos, após sua mãe notar que ele assistia televisão muito próximo do aparelho. A falta de visão não impediu que Guilherme praticasse natação e fez com que ele conhecesse a vida de outra forma. O francano superou dificuldades e barreiras vividas por um deficiente e se tornou um dos principais nadadores paralímpicos das Américas.
Recentemente, na disputa dos Jogos Parapan-Americanos de Toronto, no Canadá, Guilherme Batista teve um desempenho acima do esperado na competição. Além de obter quatro medalhas (uma de ouro e três de bronze), o nadador francano bateu o recorde Parapan-Americano na prova dos 100 metros peito ao completar o percurso em primeiro lugar, com o tempo de 1m14s30. Outro feito obtido pelo atleta foi nos 200 metros medley. Com o tempo de 2m27s99, ele bateu o recorde brasileiro. Guilherme Batista compete na categoria S13 (para atletas com taxa de 10 a 15% de visão).
Mesmo com as importantes conquistas, Guilherme não se dá por satisfeito. O francano tem pretensões ainda maiores na carreira. O próximo objetivo traçado é conquistar vaga para representar o país nas Olimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro. E se depender da história de vida, Guilherme Batista vai alcançar mais esta meta.
Guilherme diz que conta com o apoio de seus familiares e que ele é definitivo para motivá-lo frente à desafios. Um deles foi integrar a equipe de natação do Praia Clube, de Uberlândia, onde está há quase dois anos. Com uma carreira promissora, o francano não deixa de reverenciar o trabalho desenvolvido pelo seu primeiro professor, Inaldo Wirz. “O Inaldo foi um dos responsáveis por tudo isso. No meu primeiro teste, ele viu um potencial em mim e me incentivou desde o início. Hoje vivo da natação”.
Passou pela sua cabeça disputar pela primeira vez os Jogos Parapan-Americanos e conquistar quatro medalhas?
O atleta não pensa muito na medalha em si. Digo que o competidor é mais bitolado em recordes e tempo. Fiquei surpreso com o recorde brasileiro na prova dos 200m medley. A medalha de ouro e o recorde das Américas também estavam nos planos na disputa dos 100m peito. Treinei muito forte para me sair bem na competição. Claro que a medalha de ouro é uma felicidade total, mas as outras três (bronze) conquistadas também foram significativas, por nadar ao lado dos canadenses e outros atletas de alto nível. Estou muito feliz pelas conquistas e o resultado em si foi maravilhoso.
Com a proximidade das Olimpíadas, como está sua expectativa em relação aos Jogos do Rio 2016?
Só o fato de ter a chance de participar, já é motivo de muito orgulho, pois o rendimento dos competidores é altíssimo. Se chegar a ir, estarei entre os melhores, e de repente passar a uma final e ficar entre os oito melhores do mundo, já considero como uma vitória. Se for classificado para o Rio de Janeiro, meu pensamento será de brigar pelo pódio, de poder ouvir o hino nacional em uma Olimpíada, ainda mais no seu país, já me deixa emocionado só de falar. Vou trabalhar pesado para estar presente.
Em sua infância, como foi lidar com a perda da visão com apenas 8 anos de idade?
Foi estranho pelo fato de não saber o que estava acontecendo. É uma doença genética. Conforme vai progredindo, ela se torna mais agressiva e é progressiva até provocar a perda da visão. De férias da escola, me deparei assistindo televisão cada vez mais próximo do visor. Na volta da escola, só conseguia enxergar a lousa quando sentava na primeira fileira. Em um bate papo com minha irmã, ela foi me explicando, e entendi que tinha a mesma deficiência dela. Procuro ver o lado positivo. Graças a Deus não corro o risco de perder a visão total (Guilherme tem 10% da visão) e mesmo com pouca visão consigo me locomover sozinho. Para nadar é mais fácil, pois é só pular na piscina e ficar entre as raias.
De que forma você superou as dificuldades enfrentadas em função da sua deficiência?
Hoje para mim é normal, mas na época que tinha oito anos e fui perdendo a visão, foi bastante complicado. Na escola, por exemplo, ia dizer para o professor que não estava enxergando o que estava escrito na lousa, e muitos não acreditavam em mim. Já escutei de professores ‘que odiava pessoas dependentes’. Isso me deixava muito abalado. Já fui chamado de metido pelas pessoas por não cumprimentar, mas, na verdade, não conseguia enxergá-las. Dificuldades são diversas, desde não poder dirigir, o que o deixa um pouco preso em casa, e ter que andar de ônibus e táxi. Até mesmo na leitura. Ler é muito importante, mas pegar um livro para ler acaba sendo muito desgastante. Às vezes fazer um vestibular é complicado, mesmo sendo ampliado. No Enem, a prova viria com mais de 100 folhas, consequentemente não teria um bom rendimento nisso....
Como foi seu contato com a natação e como surgiu o esporte em sua vida?
Eu fazia curso de música no Jardim Paulistano, na Casa de Assistência para Deficiente Visual. Até que um dia, um amigo perguntou se eu sabia nadar e se gostaria de fazer um teste. Disse que sabia e que gostava de nadar no rancho do meu pai. Logo nos primeiros dias, o professor Inaldo Wirz viu um potencial em mim. Daí passei a treinar duas vezes na semana, depois três, até que a natação tomou todo meu tempo. Hoje posso dizer que vivo da natação.
Quais foram os benefícios que o esporte trouxe em sua vida?
O deficiente supera sua deficiência não só por ser um atleta. Tem vários deficientes espalhados por aí que possuem empregos comuns, e de certa forma, superam seus problemas. No meu caso, o fato de ser atleta vejo apenas como minha profissão. Gosto de ser conhecido como atleta que superou as barreiras da deficiência no seu esporte. As pessoas não verão o Guilherme com dificuldades para se locomover na cidade ou ler um livro, mas sim um Guilherme recordista, vencedor de medalhas, que representa Franca, que deixou sua família para ir atrás dos seus objetivos.
Como foi o papel de sua família para em sua trajetória até aqui?
Minha família sempre me deu muito apoio. Em nenhum momento fui tratado com diferença. Minha irmã também tem a mesma deficiência, mas sempre fomos bom astral. Minha mãe me apoiou muito no começo da carreira. Ela ia me buscar na escola, levava um lanche para comer na viagem, depois íamos para as aulas de natação na Unifran. Nessa época, ela deixou de trabalhar para me acompanhar e me ver nadar. Essa atitude dela carrego comigo durante os meus treinamentos. Busco superar cada vez mais meus limites como forma de retribuição por tudo aquilo que ela fez e faz por mim.
Mesmo ainda jovem, a trajetória do nadador Guilherme Batista pode ser definida como uma história de superação e vitória?
Na minha volta para Franca, ouvi de familiares e amigos que sou motivo de orgulho por representar o país e conseguir subir no pódio. Faço que eu gosto, mas com muita dedicação. Esse é o segredo para as pessoas saírem bem na vida. Claro que com o deficiente é mais complicado, tem outras coisas envolvidas. Se hoje sou exemplo para alguns, ‘daquele garoto que superou seu problema e levou o nome do Brasil e Franca com muito orgulho’, fico agradecido por receber esse reconhecimento. Quero através desta matéria atrair mais pessoas e despertar nelas o interesse pelo esporte. Além da natação, existem outras modalidades adaptadas, e acredito que o esporte pode mudar a vida de qualquer um. E é a isso que dou valor. Se isso acontecer, acho que valerá mais a pena do que qualquer medalha conquistada por mim.
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