Dizem que é possível saber muito sobre o que somos através das nossas preferências culinárias. Não é de hoje que os antropólogos deitam e rolam na arte da adivinhação quando obtêm resposta para uma simples pergunta: o que você comeu hoje? É preciso conhecimento e estudo porque a Gestalt, ou seja, o conjunto de experiências vividas pelo indivíduo, sobretudo na infância, definirá fortemente o que ele gostará ou não de comer. Memórias boas evocarão junto a memória do bom gosto, ainda que a coisa comida não fosse lá grandes coisas...
Pois bem, uma recente pesquisa culinária, patrocinada por uma empresa de marketing de Hong Kong, repercutiu no mundo inteiro, porque justamente pôs em cheque o gosto particular, o gosto cultural, a comida de conforto, em confronto com a aparência, com o cool. A versão italiana da revista eletrônica Wired divulgou a experiência. Foram feitos dois pratos idênticos - um risoto -, só que: uma versão simples, com ingredientes populares, e outra, com ingredientes de primeira qualidade e executada conforme os padrões da alta gastronomia.
Todos os participantes puderam experimentar tranquilamente as duas versões, mas, quando o prato simples estava sendo apresentado, eis que um “chef com acento francês” aparece em cena e começa a explicar o prato. Ele foi totalmente instruído pelo grupo de pesquisa quanto à postura, fala, gestos e um vocabulário mágico, considerando-se o mundo gastronômico atual: autoral, açafrão iraniano, arroz japonês, alcaçuz francês. A citação de ingredientes cuja raridade e preço se sobrepõem foi fundamental no resultado da pesquisa: 77% dos pesquisados deram nota máxima em todos os quesitos ao prato mais simples, porém incensado pelo falso chef.
Esse simples experimento demonstra como nos defendemos mal quando o assunto que nos envolve é a imagem que queremos passar. Entendo como é difícil para qualquer pessoa dizer que aquele prato autoral é menos gostoso que o simples. Entendo a confusão que se processa no cérebro quando informações de prestígio chegam junto com as informações do paladar. Não é à toa que degustações às cegas são sempre surpreendentes! O cenário é desanimador porque só a comida de mãe e vó (e elas não querem cozinhar mais) podem ser páreo para as ditas (muitas vezes bobas) comidas autorais. Meu marido é vegetariano há 30 anos, mas o croquete de carne de sua mãe ainda lhe faz salivar. Quanto à originalidade, a escritora Nina Horta uma vez empreendeu uma jornada para inventar uma receita. Diz que tentou de tudo, misturou as coisas mais improváveis e, para desapontamento dela, em algum lugar, alguém já tentara aquela combinação. Contudo, é verdade, muita coisa gostosa se pode comer por aí, coisas novas, capazes de confundir os sentidos. Mas, sem dúvida, a bobeira torna-se cada vez mais o master chef da vez.
DICA DA SEMANA
Comida da mamãe
Diante do assunto “experiências da infância”, impossível não lembrar da comida da mamãe, da vovó... E elas são, realmente, as poucas que podem fazer frente a todas as delícias que vemos por aí. Nada melhor, então, do que lembrar algumas dicas bem caseiras que podem ajudar a conseguir um resultado melhor naqueles pratos simples, que elas sabem fazer como niguém. Um deles é o arroz soltinho. Para conseguir esse resutado, bastam algumas gotinhas de limão durante o cozimento. Para conseguir um omelete mais fofinho, basta bater a clara em neve, bater a gema e só então misturar as duas. Se a preocupação é garantir um bolo mais fofo, use os ingredientes em temperatura ambiente e não gelados. Dizem que para o feijão ficar mais macio, deve-se acrescentar o sal somente no final do cozimento. Se a ideia é deixar a carne mais macia, deixe-a de molho por algumas horas no leite antes do preparo. A dica vale especialmente para a carne de churrasco.
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