Em uma das ruas paralelas à principal avenida do Leporace, a Abrahão Brickmann, vivem Davi, Wagner Paulo, Willian Paulo e Cleverson. Embora apenas Wagner e Willian tenham parentesco real - pai e filho - eles se consideram uma família, incluindo os “membros” Cinzento e Pingo, dois vira-latas “preguiçosos” que os acompanham. Eles convivem há cerca de dez anos e compartilham histórias parecidas: rompimento familiar, dependência química, moradia na rua.
“Aqui é nossa casa”, disse Cleverson, apontando o sofá na calçada, o fogareiro do outro lado da rua. “Não tem bagunça, não. A gente pega a vassoura e limpa, pode reparar”, comentou Davi. “Mas o povo não deixa a gente em paz. Ontem, eles vieram e levaram tudo. Minha roupa, nossas panelas, os cobertores, o isopor com a comida, a pinga, tudo. A sorte é que hoje mesmo já ganhamos um sofá e roupa que o pessoal da igreja trouxe”, disse Wagner Paulo.
Sobre suas histórias, relataram a baixa escolaridade, sobre antigos empregos e sobre como foram parar na rua. Três deles concluíram a quarta série do ensino fundamental. Já trabalharam como metalúrgico, sapateiro, gerente de produção e pastor. A dependência química é a explicação para a vida nas ruas.
“Largar essa vida” é o desejo manifesto dos quatro. Afirmaram “agarrar qualquer oportunidade” para sair dalí. No entanto, não é o que se verifica na prática. Um ex-morador de rua, que conviveu com um dos quatro, passou pelo local enquanto a reportagem estava no bairro e contou ter deixado as drogas, se casado e encontrado emprego como salgadeiro. “Ofereci ajudar o pessoal; levar para o programa da Igreja que me ajudou a deixar a droga, mas não quiseram”, disse Vilson Balieiro.
Quando perguntados, afinal, o que queriam, a resposta denotou um desejo utópico de que, como num passe de mágica, suas realidades fossem diferentes. “A gente quer uma casa ou um emprego”, disse Cleverson. “Sem casa, como é que a gente vai levar a marmita?”, perguntou Davi. Por fim, um terceiro resmungou: “que pelo menos eles parem de levar nossas coisas embora”.
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