Na casa onde vive no Centro, Guido Bettarello preserva caixas e caixas de memórias colecionadas ao longo de seus 96 anos. São mais de 480 processos de prisões efetuadas durante seus 20 anos como delegado de polícia em Franca; credencial de sua época como repórter; comendas e fotos de família. Acompanhado por sua bengala, a quem chama ‘namorada’, ele falou com bom-humor ao Comércio sobre seu passado humilde e toda sua trajetória.
“Tenho origem italiana por parte de meu pai - Argante Bettarello, nascido em Rovigo -, e brasileira por parte de minha mãe, Ema Smolari. Sou de uma família numerosa, o quarto filho de nove irmãos: Somos os Bettarellos da Franca!”, disse ele.
Embora tenha a cidade das Três Colinas no coração, sua naturalidade é batataense. Veio para cá aos 4 anos, de onde não mais saiu. Aqui, começou a trabalhar aos 8 anos seguindo por diversas profissões. Limpou armas a troco de alimento; foi tipógrafo, impressor e revisor de jornais; trabalhou em lojas de ferragens; formou-se em Economia e Direito, foi comerciante e, por um acaso do destino, tornou-se delegado de polícia. “São muitas histórias.”
Se por um lado o campo profissional foi agitado, o afetivo mostrou-se estável. Teve na vida uma única mulher com quem viveu por mais de 60 anos até sua morte, há cerca de 8 anos. “Elza foi minha grande companheira.” Com ela, Guido concebeu os filhos Paulo, Luiz Sérgio e Donizete, que lhes deram seis netos e três bisnetos. Conheça um pouco sobre Guido Bettarello.
O senhor é natural de Batatais, mas viveu em Franca a maior parte de sua vida. Como foi seu início na cidade e que relação construiu com ela?
Nasci em Batatais, mas tenho duas cidadanias porque tive o privilégio e a satisfação de ver a Câmara Municipal me concedendo o título de cidadão francano. É o meu orgulho. Vim para Franca aos 4 anos de idade. Meu pai, Argante Bettarello, foi o primeiro ourives e relojoeiro a vir para Franca, em 1924. Ele morreu aos 40 anos e lutamos a valer para vencer a batalha, porque com a perda do meu pai, as coisas se tornaram muito difíceis. Minha mãe, Ema Smolari, era do lar e meu irmão caçula nasceu três meses após a morte do meu pai.
Como a família se estruturou após a morte de seu pai?
Eu tinha 12 anos mas já trabalhava desde os 8. Quando comecei, meu irmão Hugo e eu trabalhávamos para o dono do jornal A Bomba, que pertencia a um jornalista do qual todo mundo tinha. Diziam que ele tinha ‘três mortes no lombo’. Ele andava armado e eu ficava responsável por limpar suas armas: um rifle, um revólver 38 e uma carabina. Ele me tinha como um filho. Nunca recebi dinheiro dele, mas passava-se bem. Os presentes que ele ganhava, principalmente alimento, me dava para levar para casa. Nós, irmãos, nos unimos para ajudar a família.
Depois deste seu emprego, o senhor se aventurou em muitas profissões. Como foi essa trajetória?
Bom, tempos depois fui trabalhar numa gráfica, onde fiquei por seis anos. Editávamos três jornais: O Momento, Brasil Novo e A Gazeta. Fui tipógrafo, impressor e cheguei a revisor. Naquela época, compúnhamos o jornal com tipos e fui chamado de ‘compositor mágico’, porque eu trabalhava rapidamente e sem erros. Trabalhei também numa casa de ferragens. Depois, fui estudar. Fui comerciante, dono da Casa Bettarello, onde tudo era “bom barato e belo” (risos). Era uma loja de brinquedos e utensílios. Dos 25 anos que me dediquei ao comércio, o dominei por 15 e tive uma ótima freguesia. Em 1958, entrei na Faculdade de Direito e quis mudar de profissão. Deixei a loja para um de meus irmãos e advoguei por dois anos e meio. Nesta época, fui ajudar um irmão que tinha sofrido um acidente na HB. Fechei meu escritório de advocacia e fique um ano e meio na fábrica.
O senhor ficou por muito tempo no comércio francano. Como foram esses 25 anos?
Tudo começou em 1º de setembro de 1939, quando estourou a 2ª Guerra Mundial. Meus irmãos compraram um fundo de negócio perto de onde é hoje a ótica Melani, ali no Centro. O Japão era do eixo contra o resto do mundo e deixou de mandar suas mercadorias para o Brasil e ela era como hoje é a chinesa; dominava o comércio. Meus irmãos passaram a ter dificuldade e eu saí da loja de ferragens para trabalhar com eles. Depois de um tempo, passei a tomar conta da loja sozinho. Se eu tivesse permanecido com ela, eu seria hoje um Magazine Luiza. Falo isso porque a Luizinha era minha concorrente. Ela trabalhava na sessão de presentes da Casa Higino, loja que tinha de agulha a caminhão. Eu fazia fusquinha para ela, porque eu ganhava presentes dos fornecedores e ela não. Eu ia até ela para exibi-los e ela ficava tiririca. Hoje, o magazine dela é uma das principais lojas do País. A gente se estimava muito.
Mas o senhor também atuou como repórter...
Pouca gente sabe, mas fui o sócio número 57 da Associação de Imprensa e Rádio. Fui representante da Gazeta Esportiva. Paulo Buarque era diretor e, em 1948, a Francana passou à primeira divisão e eu fazia as coberturas dominicais. Fiquei por 4 anos como representante desse jornal. Quando saí, fui devolver em mãos o minhas credenciais na Gazeta e o Paulo Buarque me disse: você vai ficar com isso eternamente, porque sempre será nosso correspondente. São coisas que eu guardo com muita satisfação.
E como foi que a polícia, força na qual atuou por mais de 20 anos, surgiu em sua vida?
Entrei na polícia em 1964, quando passamos pela Revolução, e saí em 1985. O Hélio Palermo foi meu colega na faculdade de Direito e, quando ele se tornou prefeito, continuamos amigos. Por duas vezes, ele me convidou para acompanhá-lo a São Paulo. Quando ele chegava nas Secretarias de Estado, não pedia favor; tinha livre acesso. Certa vez, entramos na Secretaria de Segurança, na época em que o doutor Cantídio Sampaio era secretário, e o Hélio brincou com ele: “olha, tem um rapaz aqui que quer ser delegado.” Mas nunca eu esperava isso! Foi a maior surpresa do mundo. Nunca tinha passado pela minha cabeça me tornar delegado. Não é que, depois de três meses, o Cantidio me chamou à São Paulo para assumir? Entrei como delegado substituto, prestei concurso e me efetivei. Tive que fazer seis meses de academia aprendendo judô, jiu jitsu, caratê... Aos 45 anos.
Como a sua família encarou essa mudança repentina?
Não acreditavam que eu seria um delegado. E sem modéstia, fui um dos delegados que mais prenderam. Tenho 482 cópias de prisão em flagrante e nunca foi relaxado um desses casos. Tenho todos guardados. Me apaixonei pela profissão; servi a 15 cidades e só me aposentei quando completei 65 anos porque, naquela época, não se podia exercer a profissão depois disso. Não queria deixar a polícia de jeito nenhum. Por mim, estaria na polícia até hoje! (risos).
Nesses 20 anos de polícia, que histórias se tornaram marcantes?
Certa vez, em Patrocínio Paulista, conheci um juiz, Olavo Zampol, responsável por aquela comarca ainda nova e de pouco serviço. Um dia, procurei por ele disse: doutor, vamos aumentar o colégio eleitoral daqui? Ele topou. A partir daí, procuramos o cartório, o padre, o fotógrafo e combinamos de nos reunirmos em vários locais da cidade para acertar as situações de quem não era registrado, de quem não era casado formalmente e quem não tinha título de eleitor. Pedimos a ajuda dos fazendeiros da região para oferecer um almoço a fim de atrair muitas pessoas. Com isso, aumentamos o colégio eleitoral e os casamentos. Isso conta em um livro de Patrocínio Paulista, publicado por um ex delegado de lá.
Houve alguma passagem cômica?
Em Ituverava aconteceu um fato muito engraçado. Lá tinha um banqueiro do jogo do bicho muito forte. Me chefe, Celso Azevedo, me ligou de Ribeirão Preto dizendo: Em Ituverava tem um banqueiro que faz toda a região e você vá até lá, sozinho, para acabar com essa história. Peguei um macacão, bigode falso e duas perucas. Enchi minhas mãos de graxa e fiquei em frente ao Banco do Brasil observando o movimento das pessoas no armazém do banqueiro. De repente, chegou a polícia de Ituverava e me pegou! O gerente do banco havia dito aos policiais que tinha um sujeito suspeito que ia assaltar a agência. Depois que me revistarem, falei quem eu era. Permaneci ali e fiz o flagrante desse homem com mais cinco apostadores. Muita coisa já aconteceu sob esses disfarces. Um dia, fui a um boteco e um de meus filhos entrou e não me reconheceu (risos).
O senhor foi casado durante mais de 60 anos com Elza Znaider Bettarello. Como a conheceu?
Me casei aos 24 anos com Elza, que era dois anos mais jovem que eu, mas nossa história começou bem antes. Eu trabalhava numa casa de ferragens e ela era uma estudante que nunca se importou comigo. Passava na porta do meu trabalho para ir à escola - onde se formou normalista - eu adorava aquela mulher. Aos 19 anos, me formei contador e fui orador das turmas de Contabilidade e Direito. E não é que ela estava na cerimônia, na primeira fileira, me ouvindo falar? Eu olhava aquela mulher linda, linda, com um belo vestido , e não reconhecia ser a mesma que eu adorava. Quando começou o baile, ela estava fugindo de um senhor, o Cavalheiro Petráglia, que também gostava dela. Ele era solteiro e começou a dançar uma, duas, três músicas com Elza até que ela pediu ajuda a um tio para que arrumasse um amigo para convidá-la para dançar. Esse tio era meu colega e me chamou. Muito gentilmente, pedi ao Cavalheiro para me ceder a contradança. Nesse mesmo dia, começamos a namorar.
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