Uma cena chama a atenção dos francanos que transitam regularmente pela Praça Barão: dois engraxates, que fazem questão de atender seus clientes trajados com roupa social. Às vezes o figurino inclui até terno e gravata. Ambos nasceram em famílias humildes e encontraram na profissão uma forma de sustento. Com muito bom humor e capricho, os jovens têm conquistado clientes e mostrado que, apesar do que muitos acreditam, essa profissão está longe de ser extinta.
Há oito anos trabalhando como engraxate, Régis Ferreira da Silva, 25, que tem um ponto fixo na Praça Barão, investiu no terno e gravata depois da indicação de um cliente que acreditava que a mudança poderia chamar atenção para o trabalho dele e ainda atrair mais clientes. “Na verdade usar essas roupas sociais é meu marketing pessoal. Uso para atrair a clientela e realmente vi um retorno positivo desde que comecei a usar”, disse.
Com mãe diarista e pai professor de capoeira, foi só depois de começar a lustrar pares e mais pares de calçados que ele descobriu que há muito tempo o pai também já havia trabalhado como engraxate. Régim, forma como é conhecido, conta que já perdeu a conta de quantos sapatos engraxou nos últimos anos. Advogados, empresários, homens, mulheres e até crianças fazem parte de sua clientela.
De acordo com o engraxate, o cenário atual da economia beneficiou o seu ramo de trabalho. “Hoje, com a crise, muitos preferem engraxar os sapatos no lugar de comprar novos”, disse.
Entre os diferenciais apontados por Régim como motivo do seu sucesso estão a qualidade do serviço e dos produtos usados. Segundo ele, a maioria volta depois do primeiro atendimento. Ele também costuma fazer malabarismos com a escova e outros objetos usados para cuidar dos sapatos.
Além de atender na praça, o engraxate presta serviço com horário marcado em residências e ainda costuma trabalhar para empresas em datas especiais, como o Dia dos Pais e também em festas de formaturas.
O engraxate, que diz atender em média dez pessoas por dia, cobra para engraxar cada par entre R$ 3 e R$ 7, dependendo do produto utilizado.
Superação
Com apenas 21 anos, o engraxate Marcionone de Souza Bueno tem uma história de superação e luta. Trabalhando desde os sete anos para ajudar no sustento da família, o jovem disse que chegou a morar na rua. “Comecei a engraxar quando tinha apenas oito anos. Desde os sete, catava papelão com a minha mãe para que pudéssemos comer e um dia um homem, me vendo trabalhar, decidiu me dar uma caixinha de engraxar. A partir daí nunca mais parei”, disse.
Segundo o engraxate, que é casado desde os 15 anos e tem dois filhos, foi depois de uma viagem a São Paulo que decidiu atender os clientes usando terno e gravata. “Lá eu vi um engraxate usando terno e decidi perguntar quanto era cada serviço dele. Fiquei surpreso quando ele disse que era R$ 50. Ele disse que deveria começar a atender assim e ver como meus clientes iam reagir”.
Ele, então, disse que passou a usar o terno do seu casamento que estava encostado no guarda-roupas. Atendendo principalmente no período noturno em portas de bares e restaurante, o engraxate diz que o número de clientes aumentou bastante depois que ele optou pelo novo traje durante o trabalho.
O engraxate pode ser encontrado nas praças da região central da cidade. Além de dar brilho aos “pisantes”, ele também trabalha como servente de pedreiro e vendendo doces. “Trabalhar nunca foi um problema pra mim. Sempre que as oportunidades aparecem, eu aproveito”, disse.
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