Bandidos


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Já são 42 dias sem chuvas. O Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia) diz que na próxima semana há 60% de chances de cair uma aguinha por aqui. A umidade relativa do ar já é menor que 30%. No deserto do Saara, na África, uma mais regiões mais áridas do mundo, é 11%. Explica a razão de tantos acordarem sobressaltados à noite, sem conseguir respirar. O nariz, ressecadíssimo, inflama e entope. Ato reflexo você abre a boca para tentar respirar e aí, tem a garganta também ressecada e, literalmente, fechada. O organismo se desequilibrae e emite alerta: você precisa acordar! Produz, então, um ‘tranco’. Você acorda e força uma inspiração profunda. Se não acorda, o corpo ‘pensa’, lança mão de sua memória e faz você sonhar um pesadelo. Você grita e... está salvo. 
 
Há cuidados que quem respira mal precisa tomar: manter recipiente com água ou toalha molhada junto à janela do ambiente onde dorme ou ligar um umidificar, mas, muito cuidado com remédios que amigos recomendam para ‘abrir o nariz’ e garantir respiração perfeita. 
 
Em palavras simples, a sequidão do ar gera inflamação de vasos sanguíneos do nariz e estes ‘incham’. Medicamentos vasoconstritores nas ‘gotinhas mágicas que abrem o nariz’, fecham os vasos. O sangue não circula, o inchaço se reduz, ‘o nariz abre’ e você respira. 
 
O problema é que vasos fechados se tornam barreira à circulação sanguínea e o coração tem que fazer mais força para bombear o sangue. A pressão, então, aumenta. Você não percebe porque ‘está feliz porque respira’. Então, porque a sensação é de conforto, você continua usando os remédios e se torna um drogadependente. Explico: como os dependentes das drogas pesadas, você busca o ‘prazer de sentir-se bem’. A conta a pagar é a mesma de drogados: a médio e longo prazo você perderá o olfato e terá problemas cardíacos que poderão levá-lo à morte. Pode acreditar. É grave assim.
 
Sou alérgico. Estudo minha condição há tempos. Aprendi muito. O que conto nos primeiros parágrafos deste texto é o que aprendi. Uso vasoconstritor? Uso quando estou desesperado e não consigo respirar. Passado o desespero, lembro-me do umidificador para a noite (ou da bacia com água ou da toalha molhada na janela) e do soro fisiológico para o dia, umidecendo o nariz para melhorar meu sono da noite. 
 
Há provérbio popular que diz que, de médico e louco todos temos um pouco. Fico louco quando não respiro adequadamente e aí, meto-me a médico e uso vasoconstritor, mas sei que erro. Arrependo-me do erro e prescrevo-me umidificação do ar e soro fisiológico. No máximo, compartilho minhas experiências. Nestes tempos de médicos falsos contratados por prefeituras municipais sabe-se lá sob quais critérios e servindo sabe-se lá, a que propósitos, todo cuidado é pouco.
 
Por último, cito bandidos contumazes que, literalmente, incendeiam a cidade nesta época de sequidão e dão risada dos problemas respiratórios que causam. Falo de moleques que adoram por fogo e correr, e de seus pais que não estão nem aí para o que filhos seus fazem, mesmo sabendo o que fazem; falo de vocês que tocam fogo em terrenos próprios ou canaviais para não ter que pagar para manter o mato baixo ou queimar as folhas para colher só a cana; falo de vocês que definem a lei que os obriga a manter ‘áreas de preservação ambiental como uma merda que tem que acabar e, então, tocam fogo e fazem cara de cenário quando são enquadrados; falo de vocês que são especuladores de terras urbanas e acham ‘muito bom quando alguém toca fogo em tudo’ porque os alivia de suas responsabilidades; e falo de vocês que são vizinhos de áreas verdes e reclamam da sujeira que o fogo ateado criminalmente causa, mas jamais lançam olhar cidadão para ajudar a enquadrar quem ‘toca esse fogo’. Vocês são todos bandidos, ‘malfeitores que fazem mal a outras pessoas’. Não encontrei no dicionário palavra melhor para defini-los.
 
 
Luiz Neto
jornalista, editor de Opinião - luizneto@comerciodafranca.com.br
 
 

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