Embora não tenham conseguido reunir um número tão grande de participantes como os protestos de junho de 2013, as manifestações de domingo, que aconteceram em mais de duas dezenas de municípios do País, gritando contra a corrupção e pedindo a saída da presidente Dilma Rousseff (PT), foram uma clara demonstração de desagrado do brasileiro contra tudo o que está aí. O povo não aceita mais pagar não apenas pelos erros do governo, que nos coloca em uma recessão que deve atravessar o próximo ano, mas também pelo enriquecimento de empreiteiros, políticos e agentes públicos, além de elementos que fazem do crime um meio de vida. Ao contrário do que querem fazer crer os defensores do PT, envolvido até o cerne nos maiores casos de corrupção já descobertos no País, os protestos não ocorrem apenas por causa dos oposicionistas: as manifestações de domingo deixaram claro o que move seus participantes.
Ao contrário dos atos programados por sindicatos e movimentos sociais, os protestos de domingo não tiveram qualquer partido ou entidade civil por trás. Há alguns dias, a Marcha das Margaridas reuniu 25 mil pessoas para “defender” Dilma em Brasília, mas o evento foi patrocinado por órgãos públicos, como a Caixa Econômica Federal. No último domingo, um ato ‘em defesa da legalidade’ realizado diante da sede do Instituto Lula, em São Paulo, reuniu pouco mais de 600 pessoas (segundo a Polícia Militar, 5 mil segundo os organizadores) que foram levadas ao local em ônibus fretados, reunindo a mesma claque paga que engrossa eventos capitaneados pela presidente e por próceres do PT. Já os protestos de domingo não contaram com nada disso. A participação foi espontânea e sem qualquer motivação política.
Foi uma manifestação legítima do descontentamento do brasileiro, cansado da relação promíscua entre política e criminalidade, que sangra os cofres do País, desfalca o bolso de trabalhadores e empresários e sonega aos que mais precisam serviços de saúde, educação e infraestrutura de qualidade. A população brasileira não defende golpes, mas clama por justiça. Os protestos de domingo não defendem qualquer tentativa de derrubar um governo eleito legitimamente, apenas exige a troca das peças que estão levando o País para o buraco e que criaram um esquema para desfalcar os cofres públicos em benefício próprio. O brasileiro mostra hoje o mesmo amadurecimento político que levou à derrocada do ex-presidente Fernando Collor. O governo, acertadamente, evitou o confronto e se cala diante das manifestações. Mas está preocupado com o que possa vir pela frente. Com a deterioração da economia e os desdobramentos da Operação Lava Jato, vem mais chumbo grosso por aí. É só aguardar.
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