A história de Silma de Alcântara Junqueira e a trajetória do Sesi Franca se confundem tão profundamente que a professora viu ser incorporado a seu sobrenome a instituição à qual se dedicou por 45 anos. “As pessoas me conhecem como ‘a Silma do Sesi’.”. De acordo com ela, este foi seu único local de trabalho já que, mesmo antes de seu nome figurar oficialmente no quadro de funcionários da instituição como professora concursada, em 1970, Silma exerceu a função de modo informal, como substituta aprendiz, aos 17 anos. “Isso aconteceu por causa de minha irmã Silvia de Alcântara Couto, que foi pioneira na área educacional do Sesi em Franca. Ela me convidava”, relembra.
Natural de Uberaba (MG), Silma veio para Franca ainda criança, aos 5 anos de idade, junto com os pais - o médico Antonio de Alcântara e a dona de casa Maria Conceição Martins de Alcântara - e cinco irmãos. Aqui, firmou raízes formando-se em pedagogia, ciências biológicas, matemática e administração; casando-se, em 1970, com o francano Antonio Galvão Junqueira e concebendo três filhos: Daniela, Taciana e Leonardo.
Em entrevista ao Comércio, Silma relembra sua trajetória no Sesi e fala sobre sua sucessão recente; aposentada desde 2001 pela instituição, ela se desligou definitivamente do Sesi no início deste mês de agosto, deixando o cargo de diretora-geral do Centro de Atividades “Osvaldo Pastore”, o mais alto dentro da unidade.
Como foi seu início na vida acadêmica? Sempre quis ser professora?
Quando eu iniciei minha alfabetização, meu pai tinha um consultório que ficava ao lado da nossa casa. Ali, eu procurava ler bulas de remédio, porque a vida inteira eu fui apaixonada pela medicina e aquilo me empolgava demais. Tudo levava a crer que eu seguiria os passos do meu pai, mas eu comecei a namorar o Galvão, hoje meu marido, aos 14 anos. Ainda era aquela coisa de olhar, pegar na mão... Com 16 anos tive que pensar a respeito da profissão - porque para cursar medicina eu teria que sair de Franca - e já falávamos de casamento. Nesta época, uma outra paixão começou a despertar em mim: lecionar. Com essa idade, eu comecei a dar aulas no Sesi como substituta, mas sem nenhum vínculo, apenas como aprendiz. Faltou professor, estava eu lá! Mas eu não tinha formação. Depois dessa experiência, cursei o magistério e entrei como professora concursada no Sesi. Formei-me ainda em ciências biológicas, matemática e administração.
Nessas quatro décadas acompanhando a evolução da Educação nas salas de aula, quais mudanças estruturais pôde perceber?
Hierarquicamente, naquela época, existia um maior distanciamento entre o professor e os alunos. Consequentemente, ele era mais respeitado. Hoje em dia, há uma maior aproximação e um respeito natural por parte dos alunos. Ainda assim, quando ele não surge, precisa ser imposto. Quanto à valorização dos profissionais, falando do Sesi, ela acontece através da capacitação do educador. Ali se tem uma realidade à parte. Tem-se uma estrutura em que se pode trabalhar com quatro laboratórios muito bem equipados, biblioteca, sala de informática e um complexo inteiro que leva o aluno a ter uma educação por excelência. Na Educação Pública, de um modo geral, eu tenho esperanças de melhora. Tenho percebido que o Poder Público já sente essa necessidade de aprimorar e capacitar seus professores. Mas ainda falta, por exemplo, melhorar a estrutura física das escolas e o próprio salário dos professores. Hoje, a pessoa que escolhe ser professor tem que ser muito idealista. Caso contrário, ela vai ser qualquer outra coisa na vida.
Você começou, informalmente, como professora substituta; passou a atuar como a profissional concursada e se aposentou à frente da direção geral do Sesi. Como foi sua escalada hierárquica na instituição?
Entrei no Sesi, como concursada, em 1970. Passei por todas as etapas de ensino, culminando como professora de ciências e matemática. Após alguns anos, assumi a direção da Escola Sesi, mais precisamente em 1987, permanecendo neste cargo durante um longo período. Em 1995, assumi a diretoria do Centro de Atividades “Osvaldo Pastore”. Cheguei a este posto por indicação de empresários francanos; do sr. Élcio Jacometti, presidente do Sindicato das Indústrias de Franca; do sr. Saulo Pucci Bueno, diretor do Ciesp; dr. Fábio Meirelles, presidente da Faesp/Senar; e dr. Carlos Eduardo Moreira Ferreira, presidente da Fiesp/Ciesp. Como diretora do Sesi de Franca, permaneci até a data do meu desligamento, com o apoio total do diretor da Fiesp, sr. Wayner Machado da Silva, e de grandes parceiros, como o diretor do Ciesp, sr. Saulo Pucci Bueno; o presidente do Sindicato das Indústrias de Franca, José Carlos Brigagão do Couto; empresários francanos e comunidade em geral.
Quais projetos relevantes ocorridos no Sesi, pode citar com o seu envolvimento?
Todos. Por aquele lugar, eu já pintei paredes e briguei muito. Eu sei da minha fama (risos), mas não me arrependo. No início de minha carreira profissional, a cidade ainda não possuía representatividade junto à estrutura organizacional da Federação. Apesar da arrecadação direta das empresas francanas ser uma das maiores do Estado de São Paulo, nós, funcionários, é que tínhamos que lutar por melhorias na educação do Sesi local. Houve uma época em que a estrutura do Sesi era muito precária e pensou-se em acabar a Educação no Sesi. Foi quando minha irmã Silvia e eu passávamos horas esperando, nas escadas da Prefeitura, pelo então prefeito José Lancha Filho. Todos os dias pedíamos um local para que nossos alunos estudassem. Por fim, ele construiu o prédio da escola “Nair Rocha”, nos deixando usar o prédio nos períodos diurnos. Somente mais tarde, após discussões e lutas, iniciou-se a parceria entre dirigentes locais e o empresariado francano. Em 1986, inaugurou-se o Centro de Atividades “Osvaldo Pastore”. Em 2014, a nova Escola Sesi, modelo de Educação por Excelência, foi inaugurada pelo sr. Paulo Skaf - presidente da Fiesp/Ciesp; Sesi/Senai; IRS; Sebrae. Durante a cerimônia de inauguração, emocionei-me muito e senti orgulho de fazer parte da história do Sesi.
Para estudar no Sesi, é preciso passar por um processo seletivo que inclui sorteio público, devido à grande procura por vagas. Seus filhos e netos conseguiram estudar ali?
Apenas o Leonardo, o mais novo. Tenho certeza de que, se pedisse aos superiores para que os colocassem na escola, poderia ser atendida. Mas eu nunca fiz isso, porque vai contra minha integridade. Na época em que meu filho estudou no Sesi, eu era diretora da escola e eu nunca o tratei com regalias. Tem até uma história engraçada a respeito. Eu sempre disse aos alunos que eles deveriam honrar a camisa do Sesi dentro e fora da escola. Certa vez, o Leonardo foi apartar uma briga fora da escola e eles, junto com dois outros colegas, foram parar na diretoria. Ele chegou com a camisa na mão e disse: eu fui apartar, mas a camisa eu tirei. Mesmo acreditando nele como filho, suspendi os três e disse: amanhã você só entrará com a presença do seu pai, que deve assinar a suspensão. No outro dia, meu marido se atrasou no trabalho porque teve de levar o filho até a direção da escola.
Após 45 anos atuando nesta instituição, ela passou a fazer parte de seu sobrenome, conforme você afirma ser reconhecida em Franca como “a Silma do Sesi”. Como foi perceber esse estreitamento?
O Sesi fez parte da minha vida. Fiquei emocionada quando li, há alguns dias, o seguinte na coluna da Patrícia: “A Silma deu o melhor do melhor da vida para o Sesi”. Na hora, eu pensei: agora eu entendi o que eu fiz. Eu fiz, realmente, o que a Patrícia disse e o Sesi, me referindo principalmente aos meus colegas de trabalho, também me deu o melhor dele. Ser conhecida como “a Silma do Sesi” me agrada muito. Durante essa trajetória, o vínculo criado deu a todos o direito de associar meu nome à entidade.
Com a sua aposentadoria definitiva do Sesi, assumiu interinamente Ivair Alves, do Sesi de Ribeirão Preto. Como você enxerga sua substituição?
Eu não seria verdadeira se dissesse que fiquei contente com essa decisão. Só que a autonomia não é minha e, sim, dos órgãos superiores. Eu desejo muito que o Ivair seja feliz e faça uma boa gestão. Mas, é claro que quando você lidera uma equipe por anos e enxerga nela novas lideranças, você espera que alguém ascenda hierarquicamente. Dentro do Sesi Franca, eu não enxergo uma pessoa capaz disso, mas várias. No entanto, eu desejo que o novo gestor seja bem sucedido.
Como foi sua rotina em 3 de agosto, seu último dia no Sesi?
Reuni minha equipe e dei a notícia. Houve choro e então eu pedi: me ajudem a deixar o Sesi. Eu não queria sair dali com a visão de rostos tristes. Fiquei o mínimo possível para resolver o que era preciso e não caminhei uma última vez pelo Sesi.
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