Está bom como está?


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Conversei esta semana com a professora Marta Alves Pereira, que ensina Ética e Responsabilidade Eco-Sustentável na Unifran e na tradicional Escola Industrial. Falamos sobre vizinhança, a boa vizinhança capaz de aproximar quem mora perto para efetiva prática de solidariedade, melhoria da segurança de nossos lares, proximidade em ocasiões de causas comuns, e até de apoio e incentivo quando é necessário. 
 
O assunto é apaixonante. Se você observar notícias sobre furtos e roubos em residências, concluirá que vários dos casos poderiam ter sido evitados, ou caminhado rumo a solução positiva se a vizinhança se conhecesse e estivesse próxima. Não falo de convivência de amizade, mas sim de convivência de conveniência. (Amizade deriva do respeito que nasce da convivência, e então, pode até acontecer). Não há serviço de segurança melhor para o lar, o último bastião do cidadão, que o olhar comprometido do vizinho do lado, certo de que é, também, objeto do cuidado de quem mora ao lado.
 
Já abordei, aqui, a experiência de Vizinhos Solidários lá de Coritiba (PR). Em resumo, quem mora no mesmo quarteirão de uma rua se encontra, conversa e se solidariza para cuidar da segurança de seus lares. Há casos em que vão mais longe: com autorização da administração municipal e parceria da concessionária de energia elétrica da cidade, colocam sirenes em postes públicos, acionados na ocasião em que um morador percebe problemas na casa do lado. Há, na internet, vídeos registrando ladrões correndo à toda para escapar ao olhar vigilante desses vizinhos que se auto-auxiliam. 
 
Recebi, à época, convites para debate o assunto. Fui a escolas, centros comunitários, igrejas. Na prática, virou nada. As razões? As de sempre. As pessoas se sentem incapazes quando têm que gastar tempo para dar vida a projetos e, aí, oferecem-se desculpas: ‘nem vamos ser recebidos’, ‘falei com o vereador, mas nunca me deu resposta’, ‘é ótimo, mas não tenho tempo já que trabalho o dia todo’, ‘meu vizinho é um chato’, ou ‘é rico e tem segurança privada 24 horas’, ou ‘não se mistura’. Por aí vai...
 
Disse-me a professora que, neste mundo corrido, as pessoas não têm tempo, ou não sabem ouvir; e se não ouvem, não compreendem e, então, não se convencem. Está coberta de razão. Falamos também sobre o aprendizado que o conhecimento da dor permite. Contou-me que tem estimulado alunos seus a visitarem casas de acolhimento a idosos para tomarem contato com a finitude da vida, com a solidão a que alguns de seus moradores são submetidos quando suas famílias os deixam lá e nunca voltam. A professora Marta dá, às visitas, peso de provas escolares. Os estudantes não vão só se quiserem. Vão porque, pelo menos no início, têm que se desincumbir das tarefa de aula. Segundo a professora, é impressionante o que o contato com a realidade proporciona. Há estudantes que tornaram essas visitas, rotinas de vida, e se tornaram homens e mulheres melhores conforme lhe contaram. De novo, Marta está certa. A história humana comprova: populações que passaram pela tristeza de perderem familiares e amigos para o horror de guerra e da fome, compreenderam a necessidade imperiosa de serem solidárias, de dar de si para cuidar de quem nada pode.
 
Conversaria com ela por horas. Há algum tempo, propus, aqui, a instalação de fóruns de cidadania pela cidade. Continuo convicto que debater cidadania é o único caminho capaz de devolver ao brasileiro a certeza de que pode pensar com a própria cabeça, envergonhar-se de ser apadrinhado e exigir ética de quem se dispõe a representá-lo. Propus a ela discutirmos a possibilidade. Ela disse sim. Tenho certeza que muitos outros cidadãos que já se cansaram de ficar calados, também dirão. Dia destes, lanço aqui um convite a que todos nos encontremos. 
 
 
Luiz Neto
jornalista, editor de Opinião - luizneto@comerciodafranca.com.br
 

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