Ninguém pode acusar-me
de ser inocente
a esta altura da vida.
Porque o amor já passou,
a infância já se foi há muito
e não há como retroceder.
Meu pai envelheceu
e minha mãe ficou surda
enquanto minha barba crescia.
A vida é de verdade e
ela é bem menos engraçada agora.
Tenho fome
e isso é problema meu.
Tenho medo;
problema meu.
Os fantasmas que hoje me impedem
de dormir à noite
são bem mais reais que aqueles
da infância na casa velha da roça.
Ser adulto é, antes de tudo,
ser solitário e melancólico.
“Salve-se quem puder!”
é a única verdade
para quem se perdeu de Deus.
Meu quarto é hoje
um grande túmulo em que jazem
em desespero eterno
as doces ilusões de minha meninice.
Mas eu ainda posso chorar
e até rezar... sozinho.
Ronaldo Silva, vendedor, universitário
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