Não sei se as mulheres percebem como estão sendo cantadas e desvalorizadas em algumas músicas massivas contemporâneas. Em décadas anteriores também foram motes de letras, mas eram tratadas com dignidade, mostradas belas, formidáveis, divinas, graciosas, sujeita de um desejos puros e amorosos.
O homem, por sua vez, era estereotipado como safado, vigarista, conquistador, malandro, tinhoso. A música Rosa, de Pixinguinha é um exemplo: ‘Tu és divina e graciosa, estátua majestosa do amor; por Deus esculturada e formada com ardor, da alma da mais linda flor de mais ativo olor, que na vida é preferida pelo beija-flor...’ Outro exemplo está nas ‘Amélias’, aquelas que eram de ‘verdade’, não tinham ‘falsidade’, ‘luxo’ e ‘riqueza’.
Nessa época, mulheres não podiam falar, porque o falar era traiçoeiro! Lembram da serpente? E da Eva?
Ocorre que Evas, Amélias e Rosas, cansadas, se uniram e resolveram cantar. Rosa Choque, de Rita Lee, é a própria liberação feminina. Mulher não é ‘sexo frágil’ porque ‘não foge a luta’. Mulher não é só objeto de prazer porque ‘nem vive só de cama’. E que os homens não provoquem: a mulher tem ‘duas faces de Eva’, uma é ‘bela’ e outra é ‘fera’.
Por conquista do movimento feminista, a mulher passou a viver os mesmos direitos do homem e a não aceitar dominação. Apesar do movimento fantástico, mulheres modernas e liberais ainda admitem ser tratadas como ‘prostituta’, ‘vadia’, ‘galinha’, ‘vaca’ etc. Aliás, contribuem para o sucesso de algumas letras. Veja esta, de ‘99%: ‘99%, ela é santa, mas aquela 1%, hum. Eu nem te conto o que ela apronta. (...) boa moça, educada, um exemplo de comportamento; meiga, prendada vai vendo, ela é um talento; mas quando surge uma data de evento, fica imaginando o movimento. A saia no corpinho, o juízo no cabide e parte pro crime.”
Pois bem. O que é piseiro? Segundo o Dicionário Informal, o ‘termo (é) usado para se referir a festa, baderna, farra, zoeira, prostíbulo.’
Acir de Matos Gomes
Advogado, professor universitário
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.