Todas as manhãs, Márcio Garcia Murari, 50, deixa sua casa em Cristais Paulista e segue para trabalhar em Franca. Não sabe o que o espera pela frente. O serviço não tem rotina e é de alto risco. Ele é o chefe da DIG (Delegacia de Investigações Gerais), unidade que tem o desafio de elucidar crimes de autoria desconhecida, como roubos, homicídios e latrocínios, que ocorrem na região.
O delegado também é o responsável pelo grupo anti-sequestro da Delegacia Seccional e coordenador do GOE (Grupo de Operações Especiais). Mesmo com apenas 12 investigadores e quatro agentes policiais, efetivo insuficiente para atender as demandas de uma cidade do porte de Franca, conseguiu colocar a DIG entre as mais eficientes do Estado.
A delegacia é a terceira colocada em termos de produtividade em toda a área de Deinter-3 (Departamento de Polícia Judiciária), sediado em Ribeirão Preto e que abrange oito delegacias seccionais e 92 cidades, incluindo Araraquara, Bebedouro, São Carlos e São Joaquim da Barra. O índice de esclarecimento de homicídios alcançado pela equipe que comanda é superior a 80%.
Na sexta-feira, Murari recebeu o Comércio e contou detalhes da carreira e do convite que recebeu para ser prefeito.
Por que decidiu entrar para a Polícia Civil?
Ingressei em julho de 1991, como escrivão, até por uma certa influência do delegado Wanir, que é meu primo. Trabalhei em Cristais Paulista até 1999. Neste período, cursei Direito na Faculdade Municipal. Em 99, prestei concurso para delegado e fui aprovado. Iniciei a academia em janeiro de 2000. Seis meses depois, tomei posse no 55 DP, na zona leste de São Paulo. Depois, fui para Taiúva, na região de Bebedouro. De lá, fui para Guará, onde fiquei por três anos e meio. Em 2006, fui convidado para assumir o setor de homicídios que tinha sido recentemente criado na DIG de Franca.
Como é lidar diariamente com o crime de homicídio?
O homicídio é o crime mais difícil de se lidar, pois lidamos com a emoção das famílias das vítimas. A família sempre tem a necessidade de saber o motivo, quer que esclareça a autoria do crime. Muitas vezes, o motivo que é apresentado não satisfaz a família, que não acredita na versão apurada pela polícia, pois, às vezes, denigre a imagem da pessoa que foi morta, porque envolve parentes ou o uso de drogas, por exemplo. O homicídio é de difícil esclarecimento. Há tempos, formamos uma equipe,cujos membros são Luciano Tavares, Paulo Rodrigues e pela Lara. A responsabilidade desta equipe é somente com o crime de homicídio, seja ele consumado ou tentado. Isto acabou trazendo um conhecimento e experiência para a equipe, o que contribuiu para o aumento do número de esclarecimentos.
A equipe conta com recursos tecnológicos, como os vistos em seriados, para elucidar os crimes ou o que resolve mesmo é o fator humano?
Contamos com algumas ferramentas tecnológicas, alguns meios que disponibilizamos. A DIG é uma delegacia especializada e tem mecanismos que ajudam no trabalho. Aqui na DIG está centrado o grupo de anti-sequestro da Delegacia Seccional. Com isto, acabamos tendo acesso à alguns meios que nos ajudam na investigação policial, mas o fator humano, o policial, é o primordial. Não adianta ter tecnologia se você não tiver um policial competente, que sabe como investigar e que não tem preguiça de ir atrás.
A DIG tem a metade do efetivo que deveria ter há 20 anos. Como é trabalhar com um efetivo tão pequeno numa cidade em que o crime não para de crescer?
O que a gente sempre coloca é a disposição e disponibilidade que os investigadores trabalham. Eles se dedicam muito. A gente não fica lamentando se faltam policiais ou não. Nossa preocupação é o trabalho.
Apesar do número de policiais aquém do necessário, os índices de resolução são positivos. A que o senhor atribui o êxito?
Nossa delegacia é a terceira colocada, no que se refere à produção, na área do Deinter-3. Isto é fruto de trabalho. Sempre peço aos investigadores que se dediquem, porque um familiar nosso também pode ser vítima de roubo ou latrocínio, de estelionato ou de estupro. Vejo esta preocupação na minha equipe. Muitas vezes, nem preciso dar qualquer determinação para que se inicie uma investigação e eles já estão correndo atrás. Outro diferencial é a alta experiência da equipe. Tenho policiais com mais de 20 anos de profissão, que sabem como interrogar, como chegar até o autor do crime.
Qual o caso mais complicado no qual trabalhou?
Tivemos vários casos que deram muito trabalho. É difícil citar uma ocorrência só, pois a maioria das ocorrências é de grande vulto. A DIG é responsável por apurar crimes envolvendo bandidos perigosos, investigamos casos de roubo, homicídio e latrocínio. Temos a incumbência de dar prioridade aos casos graves. Posso citar o sequestro da esposa de um empresário, ocorrido em Franca, e que trabalhamos durante uma semana inteira, 24 horas, e conseguimos que a vítima fosse libertada sem que houvesse qualquer problema com ela. Esclarecemos a autoria e quatro pessoas foram presas. Não houve a divulgação na época por uma política da Delegacia Seccional. Foi um trabalho árduo e cansativo que mostrou o preparo dos policiais de Franca, tanto é que, naquela época, estive no Deic em São Paulo com os delegados do grupo anti-sequestro e eles me disseram que tudo o nós fizemos, é o que eles fazem lá. Num sequestro, a prioridade é preservar a vida da vítima. Os familiares não se importam com o dinheiro. Eles querem a vítima de volta e, isto, nós conseguimos.
Qual é o sentimento ao esclarecer uma crime de difícil elucidação?
É um sentimento de muito prazer. Em qualquer profissão, quando você realiza um trabalho que traz frutos, você fica realizado. Todas as manhãs, chego na delegacia disposto a trabalhar, pois venho para um local que gosto. Percebo que o mesmo acontece com minha equipe. Criamos um ambiente muito positivo na delegacia. Todos que aqui estão, mostram disposição em realizar o trabalho, que é difícil e cansativo. O clima bom e a unidade da equipe trazem o fruto, que é o alto índice de esclarecimento e de prisões.
Por outro lado, como é lidar com a impunidade? Uma investigação leva tempo e, muitas vezes, quando o inquérito é concluído, o criminoso já foi solto...
Esse é um problema da nossa legislação. Muitas vezes, o investigador chega para mim e diz: ‘puxa, o trabalho que tivemos e este cara já está na rua’. Isto, é frustrante, mas não podemos ficar preocupados com o resultado lá na frente. O importante é o nosso resultado momentâneo, conseguimos dar conta e identificamos. Procuro incentivar os investigadores na busca de melhores provas. Não podemos deixar de lamentar que a lei é muito permissiva. Hoje, nos crimes de furtos, que ocorrem com frequência na cidade, a legislação permite que não seja decretada a prisão preventiva e que o autor aguarde em liberdade. Em certos casos, realmente, a gente fica frustrado, mas em crimes mais graves, como roubos, homicídios e latrocínios, o resultado do processo penal, na esmagadora maioria, é de condenação. Isto reflete o excelente trabalho que foi feito durante a investigação no inquérito policial.
Qual é a modalidade de crime que mais preocupa a polícia de Franca?
Pela natureza violenta, é o roubo. Por isto que damos ênfase no esclarecimento deste tipo de crime, principalmente, quando ocorre invasão de residência, para tirar o autor de circulação o mais rápido possível, pois este autor de roubo, amanhã, pode cometer uma latrocínio.
Como é sair de casa, deixar a família para resolver problemas dos outros e não saber se vai voltar?
Com o passar do tempo, o serviço se torna uma rotina e a gente não tem mais esta preocupação. Sabemos que vamos enfrentar o perigo diariamente. Todo policial vai enfrentar o perigo e pode sofrer consequências, inclusive, em sua vida particular. O que faço, é sempre alertar minha família como proceder em várias situações. Como delegado, eu e minha família não podemos frequentar vários lugares. Há uma restrição, mas escolhi esta profissão, abracei a profissão, gosto do que faço e procuro fazer da melhor maneira possível. Há um preço a se pagar e o preço é este. Se ficarmos preocupados em sair de casa sem saber se vamos voltar, não desempenhamos bem nossa função.
O que é ser policial?
É ter dedicação. A pessoa precisa ser abnegada, precisa saber se portar diante de pessoas, conviver diariamente com problemas de outras pessoas e, principalmente, saber lidar com estes problemas sem se envolver emocionalmente. O policial precisa ser frio e profissional para não atrapalhar a investigação. Para mim, ser policial é uma missão.
Já correu riscos, foi ameaçado?
Já passei por situações veladas que nunca se concretizaram. Nem por isso, mudei minha vida. A gente fica mais atento, mas o policial, pela própria formação e rotina, já é mais atento.
Almeja postos mais altos na polícia?
Claro. Todos que trabalham na Polícia Civil esperam ter um cargo melhor, mas não trabalho visando exclusivamente isto. Trabalho para tentar dar uma resposta para a sociedade, para mostrar sempre o lado positivo da Polícia Civil, porque é fácil achar o lado negativo de qualquer profissão. Procuro sempre mostrar que, na Polícia Civil, existem boas pessoas, bons homens, principalmente, pais de famílias, que estão preocupadas com a criminalidade. Com o decorrer do tempo, quem sabe, o trabalho que a gente realiza, pode acontecer de alcançar postos maiores. Mas, se não acontecer, nem por isto vou me arrepender de ter escolhido a profissão de delegado.
Nas últimas eleições, o senhor teve o nome cogitado para disputar a Prefeitura de Cristais Paulista, onde mora. Uma carreira na política faz parte de seus planos?
Até hoje, as pessoas me perguntam se um dia serei candidato. Acho muito difícil. Fui convidado e, num primeiro momento, fiquei de pensar, mas o coração falou mais alto e preferi continuar como delegado. Colegas que assumiram o Executivo na região dizem que é complicado, a Lei de Responsabilidade Fiscal engessou a administração. Prefiro continuar na minha carreira. Certamente, não quero arrumar problemas para a minha vida.
Já prendeu políticos?
Já, mas eu prefiro não comentar (risos).
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