Dureza pra quê?


| Tempo de leitura: 3 min
Centavo, todos nós, pobres mortais assalariados, sabemos o que é. Medimos o que somos através dos centavos que sobram em cada final de mês, ‘se é que sobram’, como diz a sabedoria popular. Milhão é algo com que apenas sonhamos. Aliás, nem gastamos tempo em tentar construir a pilha que tal dinheirama formaria, mas, só para fazer pensar, contribuo: milhão, para a maioria da população, não se alcança nem depois de trabalhar a vida inteira. Quem ganha salário mínimo sabe. Ao valor de hoje — R$ 788/mês, R$ 26,27 por dia, R$ 3,58 por hora —, atingiria ‘um’ milhão em 1.269 meses, quase 106 anos de trabalho duro, sem gastar nadica de nada com alimentação, cuidados pessoais, lazer, combustível — feijão, a exemplo —, escola, médico e farmácia para nos manter em pé todo esse tempo. 
 
Somos, então, do mundo dos centavos, engraxates, professores, lixeiros, funcionários públicos, coveiros, sapateiros, profissionais públicos ou liberais, autônomos, estudantes, caixas de supermercados. Pagamos impostos escandalosos, arcamos com reajustes de preços que nos impingem para que continuem se beneficiando dos milhões. Segundo o dicionário, aquele que tem (no mínimo) um milhão, é milionário, mas há controvérsias. Estamos falando de reais ou de dólares? Explico. Milionário brasileiro — aquele que tem que ter um mínimo de um milhão de reais —, não é ninguém perto do milionário americano. Para ‘chegar’ ao poder de compra do milhão dele, lá no país dele, nosso milionário tem que acumular — deixem-me ver a cotação de hoje, 13h43, hora em que escrevo. É R$ 3,5238 e continua oscilando... — R$ 3.522.800! Percebeu? Nosso milhão é miragem. É, na verdade, ainda pior. Faça de novo as contas que propus algumas linhas atrás...
 
A partir daqui, vou direto ao assunto. Anteontem sai com minha mulher depois do trabalho do dia, em busca de uma boa salada e um bife, mais do que adequado para quem, como nós, já passamos dos 60, queremos ter uma boa noite de descanso para, dia seguinte, prosseguirmos nossa luta pelo primeiro milhão brasileiro. (Combinamos, nós dois, em somar nossas rendas. Agindo assim, em ‘apenas’ 53 anos chegaremos lá. Só não resolvemos ainda como vamos dispensar todas as nossas outras despesas, até a salada com o bife, para atingir a meta).
 
Saímos sem rumo. É difícil encontrar em Franca uma boa salada mista e um bife (só isso, sem couvert, banana frita, batatinhas e pasteizinhos requentados e tudo aquilo que nos servem quando sentamos, não consumimos mas pagamos). Quem serve só bife com salada, que divulgue. Garanto que a clientela vai aumentar. Lá no ‘Costelão’, negociamos aquele dia com nosso amigo Nadir e ele não pensou duas vezes. Fez, e a um preço justo. Enquanto aguardávamos, não pudemos deixar de ouvir parte de proseio de amigos em mesa próxima: ‘neste país, só quem tem valor é político, cantor sertanejo e jogador de futebol!’.
 
Frase lúcida. Para esses, milhão é só centavo, e é fácil comprovar: esta semana, a Procuradoria Geral da República denunciou o ex-presidente da República impinchado, Collor, por ter recebido R$ 26 milhões em propinas e lhe confiscou um Land Rover, um Bentley, um Lamborghini e uma Ferrari. Cantores sertanejos ‘da hora’ cobram, em média, R$ 300 mil por show, e nenhum deles faz menos de dez por mês. Do que se paga a jogador de futebol é bom nem comentar. A questão não é o mérito. Considero bons e dedicados professores candidatos a ganharem o que esses ganham. Até mais. 
 
Este texto, embora possa parecer grito de pobre contra milionário, não é. Políticos, cantores sertanejos e jogadores de futebol não precisam ter escola, podem ser semialfabetizados e não estão sujeitos a exigências incontornáveis impostas a quem busca simples vaga de trabalho que paga salário mínimo. Aqueles lá dependem ‘só’ de quem vota, de quem gosta e de quem torce. Porque se dão tão bem, fazemos deles ídolos e até deuses. É por isso que ninguém quer saber de trabalho duro, preferindo o ‘jeitinho’, ‘dando um chapéu’, ‘enganando os otários’. 
 
 
Luiz Neto
jornalista, editor de Opinião - luizneto@comerciodafranca.com.br
 

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários