Um dia depois de debochar da denúncia feita pelo Comércio da Franca sobre a existência de mais um falso médico atuando na cidade, o prefeito Alexandre Ferreira (PSDB) mudou de postura. Para o programa Balanço Geral, da Rede Record, admitiu a existência de um bando de falsários atendendo nos dois prontos-socorros da cidade. Não citou nomes. Disse apenas que a Prefeitura identificou quatro falsos médicos entre os profissionais contratados pelo ICV (Instituto Ciências da Vida), responsável por administrar o Pronto-socorro Municipal “Álvaro Azzuz” e Infantil.
Três dias antes, o Comércio já havia denunciado a existência de um novo falsário, além de Pablo Mussolim, que está preso em Mairinque. O novo criminoso, que atuou no Pronto-socorro Infantil entre os meses de junho e outubro de 2014, se aproveitou do nome e do número de registro de Danilo Bringel Landim, um médico recém-formado que mora em Brejo Santo, no Ceará.
O trabalho de investigação do jornal ainda revelou que o falsário que se passou por Danilo atendeu ao menino Miguel Schentl, de 1 ano, que morreu vítima de meningite na Santa Casa, em agosto do ano passado. A família de Miguel processa a Prefeitura por descaso e negligência médica. A indenização pedida à Justiça ultrapassa a casa dos R$ 490 mil.
Segundo a Assessoria de Comunicação da Prefeitura, os nomes dos novos falsários identificados não serão revelados para não atrapalhar as investigações. Apenas o nome Danilo, já denunciado pelo Comércio, foi confirmado. Os outros dois nomes são mantidos sob sigilo.
Na semana passada, auxiliares, enfermeiras e médicos que trabalham no Pronto-socorro “Álvaro Azzuz” levantaram suspeitas sobre os nomes de três outros médicos - um a mais que a Prefeitura - que prestaram serviços ao ICV em Franca: Cláudia Barbosa de Almeida Medeiros, Naas Adonais Carvalho de Assis e Danilton Mendes da Cunha. Todos atuaram como emergencialista no “Álvaro Azzuz”. No fim da tarde desta quinta-feira, o ICV enviou nota informando que Danilton de fato é médico e tem registro regular no Conselho Regional de Medicina. Ontem ele que atuou no Rio de Janeiro e foi formado pela Universidade de Alfenas não foi localizado para confirmar seu registro.
Nas investigações, o Comércio descobriu que Cláudia é natural de Recife, Pernambuco. No período de junho a outubro do ano passado, quando teria atuado em Franca, a médica, que é ortopedista e traumatologista, prestou serviços ao Hospital Getúlio Vargas, na capital pernambucana. Atualmente, ela é médica residente do curso de cirurgia de mãos da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. O Comércio tentou, durante a semana, contato com Cláudia. Deixou diversos recados tanto no hospital do Recife quanto na Santa Casa, mas ela não retornou as ligações para confirmar se seu nome foi usado indevidamente por uma falsária em Franca.
Naas Adonais Carvalho de Assis se formou na Universidade de Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia, e teve seu diploma revalidado no Brasil em 2012. Atualmente ele presta serviços no AME de Capão Redondo, na capital paulista. Neste ano, também foi aprovado para o curso de pós-graduação em coloproctologia, oferecido pelo Hospital Albert Einstein, em São Paulo. O Comércio também deixou recado com funcionários do AME para que ele entrasse em contato, mas não houve retorno.
Claudia e Naas tiveram suas fotos, que constam dos registros do Cremesp, mostradas para quatro funcionários do Pronto-socorro, que não os reconheceram como sendo as pessoas que trabalhavam com estes nomes na cidade. A Assessoria não confirmou se os falsários identificados pela Prefeitura usavam os nomes citados.
Inicialmente, o prefeito tentou isentar o ICV (Instituto Ciência da Vida) da responsabilidade pela contratação dos falsários. “Eles (os diretores dos ICV) também foram enganados. Os documentos apresentados pelos falsários pareciam verdadeiros”. Ele também disse que a contratação do instituto é necessária já que a Prefeitura não consegue preencher as vagas de médicos em concursos públicos.
Só agora, depois da identificação de quatro falsários, o prefeito disse que deve conferir a documentação dos médicos que atuaram e atuam atendendo no Pronto-socorro contratados pelo ICV. Ele também afirmou que vai cobrar a devolução do dinheiro pago aos falsários, mas não explicou como ou quando fará essa cobrança.
O ICV, em nota, afirmou “que apoia e está colaborando com as investigações e sente-se igualmente vítima desses supostos falsos médicos”.
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