A cor da pele, a condição social e abusos sofridos na infância não foram suficientes para diminuir o brilho de uma mulher que nasceu para vencer. Com apenas 35 anos, apesar dos entraves da vida, a advogada Néria Lúcio Buzatto tem trilhado um caminho de sucesso. Natural da cidade mineira Monte Santos de Minas, a atual vice-prefeita de Patrocínio Paulista, mudou para a cidade com apenas seis meses de vida.
Filha de uma faxineira aposentada e de um caldeireiro, falecido há três anos, a política, eleita quando ainda integrava o Partido dos Trabalhadores (PT) - partido do qual se desfiliou, segundo ela por não concordar com o rumo tomado pela atual administração - carrega consigo o orgulho por ser a primeira mulher negra eleita vereadora e presidente da Câmara da cidade.
Casada com um descendente de italiano e mãe de um menino de 13 anos, ela diz que já sentiu na pele incontáveis vezes o preconceito por ser negra e mulher. Foi depois do incentivo dos vizinhos que decidiu ingressar na vida política e desde então jamais deixou a vida pública. Logo na sua primeira eleição, na qual ela afirma ter gasto apenas R$ 30 e alguns pares de chinelo, foi eleita vereadora da cidade. Com um trabalho representativo, quando criou a Associação dos Estudantes da cidade e instituiu a isenção do IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano) para pessoas com o câncer, ela trilhou seu caminho até a cadeira de vice-prefeita.
Você veio de uma família humilde e sem antecedentes na política. De onde nasceu a vontade de ingressar nessa área?
Na verdade me candidatei depois de muito incentivo de moradores da cidade. A avenida em que minha mãe mora, no bairro Bandeirantes, foi a primeira de Patrocínio que teve canteiro central, isso porque fomos para a Câmara. Comecei a usar a tribuna livre e conseguimos o canteiro central na avenida. Depois disso as pessoas da cidade passaram a me procurar e me pedir para lutar pelas causas e ajudá-los. Com isso passei a ser impulsionada a fazer as coisas. Muitos começaram a falar para me candidatar, mas naquela época isso nem se passava pela minha mente. ‘Você faz mais que os vereadores eleitos para isso, por que não se candidata?’ Essa era uma pergunta comum. Isso aconteceu em 2002, me filiei em 2003 e já em 2004 fui eleita.
Como foi a escolha pelo Partido dos Trabalhadores?
Na verdade, o Partido dos Trabalhadores foi uma escolha natural. A partir do momento em que descobri que os meus desejos e ideais iam ao encontro dos desejos dos outros membros do partido em Patrocínio, minha decisão foi tomada. Me identificava com o partido e com a filosofia que ele pregava. Sempre acreditei nas causas sociais e naquele momento o que o partido buscava coincidia com o que eu acreditava. Fui recebida de braços abertos e o diretório me apoiou desde a primeira eleição, quando tive a felicidade de ser eleita.
Em 2004, na sua primeira eleição, foi eleita vereadora da cidade. A primeira mulher negra a ocupar esse cargo. Em 2008, foi reeleita como a vereadora mais bem votada. Como você analisa essa aprovação da população?
Na minha primeira eleição já consegui uma votação expressiva sendo eleita, entre 100 candidatos, como a 4ª mais bem votada. E isso gastando apenas R$ 30 e alguns pares de chinelos. Batia de porta em porta e apresentava as minhas propostas. Acredito que os moradores, principalmente aqueles que não se sentiam representados, acabavam se enxergando em mim. Mesmo humildemente acredito que consegui passar o meu recado para os 222 eleitores que me escolheram, mesmo sem experiência, para representá-los no Legislativo. Logo na minha segunda eleição, em 2008, fui a vereadora mais bem votada, com 459 votos. Acredito que essa segunda votação tenha sido reflexo do trabalho que prestei e sinal de que consegui atender as expectativas dos meus eleitores.
Que ações de sua participação no Legislativo de Patrocínio Paulista você destaca?
Sempre busquei trabalhar pela educação e nas questões sociais. Consegui a Associação dos Estudantes de Patrocínio e isso trouxe vários benefícios como descontos e hoje acabei de conseguir com que todos os estudantes da cidade tenham um desconto de 30% nas mensalidades na Unifran (Universidade de Franca). Essa luta começou quando eu ainda era vereadora. Sempre fui muito participativa e apresentei vários projetos de lei. Outra medida importante foi instituir a isenção do IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano) para pessoas acometidas pelo câncer.
Você entrou para a política e foi eleita no PT, que hoje comanda o Brasil. O país passa por uma grande crise e especulações sobre o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Como você avalia o PT atualmente?
É difícil falar, pois é injusto cuspir no prato que comeu, porém se o próprio Lula disse que o PT perdeu a identidade, quem sou eu pra dizer que não?. Admiro muito o trabalho feito, tanto pelo Lula nos dois mandatos e a Dilma no primeiro. Sou de origem humilde e sempre lutei pelos mais pobres, por isso as conquistas do partido nos primeiros 12 anos foram grandes. Infelizmente, acho que a Dilma pecou em esconder, durante as eleições, a crise que se aproximava. Agora eu também acredito que o partido perdeu a identidade que o consagrou.
Hoje a luta contra o preconceito, incluindo o racismo, é bem presente na sociedade brasileira. Como você, negra, advogada e vice-prefeita de Patrocínio Paulista, enxerga atitudes preconceituosas como a enfrentada recentemente pela jornalista Maria Júlia Coutinho, a Maju, garota do tempo do Jornal Nacional?
Vejo isso como uma doença que precisa ser exterminada. Hoje o preconceito é muito mais velado, muito mais discreto, mas existe. Enxergo o próprio preconceito que existe na cabeça do negro, mas esse preconceito foi cultivado na cabeça desse negro por atitudes de outras pessoas. O preconceito da sociedade é muito grande. E não importa o lugar que essa pessoa ocupe, isso acontece com todos. Um exemplo disso são os jogadores de futebol que no nosso país são ídolos, mas quando erram e são negros, a primeira ofensa é chamá-los de macacos e outros apelidos, e os brancos não passam por isso.
Você sofre algum tipo de preconceito?
Sim, o preconceito, como disse, atinge independente do cargo que você ocupe. Uma vez fui convidada a participar, como presidente da Câmara, de uma palestra em outra cidade e desconfiaram que eu não seria a presidente apenas pela cor da minha pele. As atendentes me falaram ‘você nos desculpe, mas imaginamos que a presidente da Câmara seria uma loira e mais velha’. Esses casos são comuns. Ainda quando fui escolhida como a candidata a vice-prefeita muitas pessoas chegaram a procurar o prefeito e perguntar se não haveria nenhum outro candidato que fosse branco. As dificuldades só serviram para me impulsionar a lutar pelas causas nas quais acredito, driblar o preconceito e prosseguir.
Como é a participação da vice-prefeita hoje na administração da cidade?
Na realidade desde dezembro do ano passado deixei o governo e me desfilei do partido em janeiro. Desde o início do governo quis ser uma vice-prefeita atuante, para isso assumi a Secretaria de Desenvolvimento Social (ela não ocupa mais esse cargo). As pessoas me procuravam para relatar problemas e eu acabava tendo dificuldades, em alguns momentos, de responder as expectativas da população. Não fazia sentido estar em um partido onde não se tem voz e todas as críticas construtivas feitas eram encaradas como de oposição. Hoje, só estou na Prefeitura quando preciso substituir o prefeito.
Depois de três mandatos e vitórias, com as últimas mudanças, você pretende continuar na vida política?
Pretendo sim. Ainda não sei em que cargo ou partido. Estou estudando as minhas opções e ouvindo os meus eleitores. As pessoas até me propõem sair para prefeita, mas ainda não tenho nada decidido, pois primeiro tenho que escolher outro partido para me filiar. A minha decisão será baseada nos ideais do partido e também nas necessidades do povo. Se sentir que será para o bem da população continuarei na política.
Hoje, depois de tudo o que já conquistou, qual seu maior sonho?
Luto pelos estudantes, negros e as mulheres. O meu maior sonho é colocar em funcionamento a ONG Diamante Rosa. Escolhi esse nome porque Patrocínio é a cidade dos diamantes e o rosa pelas mulheres. A cidade hoje tem um índice muito grande de estupros e violência doméstica e quero oferecer apoio a essas mulheres. Nunca falei sobre isso antes, mas quando era criança sofri abuso sexual. Foi muito difícil passar por tudo isso, pelo sofrimento, entender o que aconteceu e que aquilo não era minha culpa. Consegui superar tudo isso e conquistar muitas coisas, apesar desse abuso ter marcado a minha vida. Por isso, quero ajudar as mulheres a superarem esse tipo de sofrimento e mostrar que é possível vencer. Hoje colocar a Diamante Rosa em andamento é, com toda certeza, meu maior sonho. Além disso, jamais abandonarei as causas dos estudantes e dos negros. Temos o nosso espaço e devemos lutar sempre por coisas melhores.
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