Sobre cozinha e romances


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Os dois estão a dividir a vida, as despesas e suas diferentes histórias  de vida. Eles encaixaram o mesmo horizonte em retinas tão opostas
Os dois estão a dividir a vida, as despesas e suas diferentes histórias de vida. Eles encaixaram o mesmo horizonte em retinas tão opostas
Ela era só cansaço, caminhava com a cabeça baixa como se a atividade de contar os passos fosse ao mesmo tempo exauriente e inadiável. No braço, a dolma pendurada nos dizia de sua profissão. Ao chamado de um homem, que pacientemente bebericava um café, num café de rua, ela ergueu os olhos, abriu um meio sorriso forçado que contrastou com a animação do rapaz que queria saber das “novas”. 
 
Pelo que entendi, ela era estagiária na cozinha de um grande restaurante, o D.O.M., trabalhava na confeitaria, e pelo jeito a prática do serviço estava destruindo os sonhos da moça, que insistia em conversar sobre um passado qualquer, feliz, onde os dois se encontraram. Ela se despediu com a seguinte frase: “Ah! Lá deve ser ótimo mesmo: para os clientes...”
 
Um ano mais tarde, lá está a moça, mesma cara de comportada, mas muito menos cansada. É uma das alunas de um curso de especialização. Juntando-se a informação do passado com a cara do presente, ela não suscita mistérios - é simples. Com a convivência, as peças-detalhes foram completando a história. Morara em São Paulo por quase um ano, um ano duro. Uma amizade lhe conduzira a uma hospedagem pouco convencional para uma moça de 20 anos: um convento. Coisa engraçada, há um convento de freiras a alguns passos de distância do restaurante D.O.M. Com certo orgulho gostava de dizer que o convento fechava as portas às 9 horas da noite e que em nenhuma ocasião fora trancada para fora. Bem, não é possível saber a intenção por trás do orgulho dessa revelação, o fato é que a partir daí ela se tornou a “freira” da turma.
 
No outro lado da sala, tinha o seu avesso. Também muito jovem, mas com experiência incomum. Dispensara os estágios na capital, depois de formado partiu logo para a Europa, se instalou no interior da França, morou no alojamento dos estagiários. Era bom olhá-lo durante as aulas de prática, demonstrava um tal controle da sua bancada, trabalhava com precisão, avançava direto, tranquilo e assertivo. Via-se nele um chef e ele brincava dizendo: “Só aprendi com os franceses!”.
 
Ele exalava confiança na vida e em si próprio, coisa de quem andou por aí. Revelou que, terminado os estágios pelo interior da França, mudou-se para Paris, morara quase um ano na casa de uma francesa que só queria se divertir por um tempo, assim como ele. 
 
Alguns acham que é coisa dos opostos, para outros, a similitude, outras, o complemento. Prova de que as razões do amor passam ao largo do nosso entendimento. 
 
Pois bem, a penúltima notícia que se teve deles é que, amantes agora, mudaram-se para o Nordeste: ela, chef de uma pousada muito simpática, ele subchef de um restaurante. Estavam a dividir a vida, as despesas e as diferentes histórias. Como fizeram para encaixar o mesmo horizonte em retinas tão opostas, não se sabe, mas é de material assim que se fabricam os romances, mesmo que se tenha que descartar a realidade. 
 
 
DICA DA SEMANA
 
Torta
Temos inúmeras receitas de tortas, principalmente cheesecake e torta de limão que ao invés de recomendar a massa quebradiça, trocam pela farinha feita a partir das bolachas de maisena. De fato elas dão um resultado satisfatório, mas um pouquinho de zelo pode transformar a receita.
 
Primeiro, o local certo de triturar a bolacha é no liquidificador, mas na modalidade pulse, assim você consegue ter controle na trituração. E nada de encher o liquidificador, é preciso espaço para que as bolachas pulem. Depois, atenção quanto a temperatura da manteiga, se a receita pede gelada é gelada, se é derretida é derretida.
 
Ainda: a receita vai te pedir para forrar uma forma de aro removível, e não dá para ser diferente, essa massa não desinforma, ela quebra. Quando for forrar a forma com a farofa, primeiro forre as laterais! Vá apertando a farofa e acertando com uma faquinha, só depois forre o fundo. 

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