Sete de agosto de 2014. Há quase um ano a história de Davi Miguel foi contada, pela primeira vez, nas páginas do Comércio. Na época, um bebê de cinco meses era apresentado como um guerreiro que lutava para sobreviver a uma doença rara que o impedia de absorver qualquer nutriente em seu organismo. A única perspectiva de cura era - e ainda é - um transplante de intestino que deveria ser feito no Hospital Jackson Memorial, localizado em Miami, nos EUA, e o custo estimado do tratamento é de dois milhões de dólares - hoje cerca de R$ 6 milhões.
A realidade se apresentava como um futuro incerto para os pais sapateiros, Jesimar e Dinea Gama. Inconformados com o pior dos cenários, empenharam-se para apoiar o pequeno Davi Miguel no hospital; pressionar a Justiça para que o caçula tivesse o direito de ser assistido no exterior além de pedir ajuda à população e mídia; que abraçaram a criança como um filho de Franca.
A união de forças foi válida e, no último dia 23 de julho de 2015, este mesmo jornal estampou como manchete a notícia de que o Ministério da Saúde aprovou a tão aguardada transferência de Davi para o Jackson Memorial. Na próxima terça-feira, mãe e filho deverão embarcar para uma importante etapa desta história que ainda aguarda um final mais que feliz. “Essa será a parte que mais mexerá com todos nós porque entraremos em uma fila de espera pelo intestino. Depois do transplante, ainda passaremos pelo pós-operatório, que será de um ano. Entregaremos tudo na mão de Deus e esperamos que milagre Davi Miguel seja completo”, disse Dinea, ao falar do futuro e relembrar do passado nesta entrevista.
Como foi para você receber a notícia da doença do Davi Miguel?
O Davi passou em casa seus primeiros cinco dias de vida e depois foi internado no Hospital Regional. Foi transferido para o Hospital das Clínicas, em Ribeirão Preto, e, lá, os médicos descobriram que ele tinha a doença de inclusão das microvilosidades (a doença o impede de absorver os alimentos pelo intestino e por isso não consegue se alimentar via oral). Foi um choque. Nunca tinha ouvido falar sobre essa doença antes. Eu imaginava que era grave - porque pensamos primeiro que fosse algo como fibrose cística, que a gente sabe que não tem cura, mas que tem tratamento - mas não tinha ideia do quanto era séria. Eu já estava apavorada, mas quando falaram que era caso para transplante... Não foi fácil conseguir aceitar, digerir toda a situação.
Ao tomar ciência da gravidade, quais foram suas primeiras providências?
Busquei na internet todo tipo de informação e encontrei o caso da Sofia (criança de Sorocaba que nasceu com Síndrome de Berdon, doença rara que impede o funcionamento dos intestinos e requer transplante multivisceral; caso parecido com o de Davi Miguel). Foi através desta história que fomos descobrindo soluções. Entramos em contato com o advogado deste caso - que conseguiu com que o Governo custeasse o tratamento dela no exterior - e ele deu algumas orientações. Também entramos em contato com a ONG Para Poder Crescer, que foi nos guiando sobre os procedimentos que deveríamos seguir. Buscamos ajuda nas orações, na Justiça, com as pessoas e na mídia.
O Davi tem hoje um ano e quatro meses e muita coisa aconteceu desde então. Neste tempo, qual momento você pode eleger como o mais difícil?
Foi quando, ainda em Franca, os médicos disseram para nós que: ‘Só pelo poder de Deus’; que não havia mais jeito. Disseram que era para aproveitarmos ao máximo o Davi porque ele poderia nos deixar a qualquer momento. Foram os dias mais difíceis de nossas vidas (choro, pausa). Me agarrei às orações e pedi a todo mundo que fizesse o mesmo. Fiz a promessa de levar o Davi Miguel a Aparecida do Norte, se Deus quiser, quando ele voltar e também ao Divino Pai Eterno. Eu acho que vai ter muita gente com promessa para pagar (risos).
Em pouco tempo a história de seu filho ultrapassou os limites de Franca e pessoas famosas intercederam em favor de doações para a causa. Como nasceu a campanha Movidos Pela Vida de Davi Miguel e como você encarou a proporção que ela tomou?
Foi no dia 10 de agosto. Iniciamos a campanha, mas não dávamos muita coisa por ela. Pensamos: milhões de dólares. Era muito dinheiro. Mesmo assim, juntamos a família num domingo e criamos a página na internet e, graças a Deus, foi um sucesso. A partir daí, as pessoas começaram a fazer eventos, rifas, leilões... Veio ajuda de lugares que a gente nem esperava! Para mim foi muito gratificante, motivo de orgulho saber que tantos abraçaram a causa dele. A essas pessoas eu só tenho a agradecer e dizer que somente Deus pode retribuir. Rezo por elas como elas rezaram por nós.
Que momento te trouxe maior emoção?
Agora. Olho para o meu filho e vejo a evolução que ele teve, apesar de tudo. Ele já está ficando em pé, fala algumas palavras... No hospital, em São Paulo, todo mundo conhece ele como Tatu. É uma das palavras que mais gosta porque tem esse bichinho em um lençol que ele usa. Também fala vovó, vovô e ‘tata’ no lugar de ‘mamãe’, porque isso ele ainda não consegue falar. Me surpreende a cada dia. Agora também veio a notícia de que embarcaremos, finalmente, para Miami.
Como você recebeu essa notícia?
Eu estava em São Paulo. Meu marido me ligou avisando que tudo tinha dado certo e que logo o Davi Miguel e eu iríamos para Miami. Fiquei muito feliz, mas fui pega de surpresa! O quarto ficou pequeno para mim. Fui ao berço, abracei o Davi e chorei. Disse para ele que o amava e que agora é a hora.
Há muito tempo você e sua família esperam por isso. Agora que está tão perto, como se sente?
Isso trouxe uma mistura de sensações muito grande: felicidade, medo, ansiedade... Sei dos riscos que vamos correr porque não se trata de uma simples cirurgia como muita gente pensa. O Davi precisa de um transplante; ficaremos em uma fila de doação. Para eu sorrir, uma mãe vai ter que chorar (chora). Não tenho nem coragem de pedir para Deus para que a operação ocorra rápido. Meu maior medo é perder o meu filho à uma distância destas.
Sobre o idioma diferente e o que te espera em um país distante: Você se preparou?
Só vou saber o que me espera quando chegar lá. Não falo uma palavra em inglês. Sei que lá no hospital tem um intérprete. Além disso, converso muito com a mãe da Sofia e do Pedrinho (que sofre da Síndrome do Intestino Curto e depende de um transplante de intestino delgado) - que estão no Hospital Jackson Memorial - pelo WhatsApp. Elas falam o inglês e vão me ajudar.
O pós-operatório de uma cirurgia como esta é estimado em um ano. Você imagina como será seu retorno ao Brasil depois deste tempo?
Ainda não tenho essa imagem. Cheguei a achar que levar o Davi até os Estados Unidos seria impossível, então agora é que estou chegando perto dessa realidade... Mesmo assim arrisco dizer que vai ser só festa porque é tanta gente torcendo por ele. É um menino muito amado. Todo mundo já adotou o Davi Miguel como filho, sobrinho, neto! Aqui, na minha casa, não imagino como seria a rotina. Quando estava grávida sim, mas desde então tantos sonhos foram desfeitos. Parece que essa ideia dele brincando no quintal, correndo pela sala foi sumindo da mente.
Para conseguir embarcar para o exterior foi necessário ingressar com um processo judicial que se arrastou por cerca de um ano. A experiência a deixou com que impressão sobre a Justiça brasileira?
Acredito que a justiça foi cumprida. Não me revolto porque a ida do Davi não dependia somente da Justiça, mas de uma série de fatores. Ele precisava ganhar peso, por exemplo. Acredito que tudo tem um momento certo para acontecer e Deus sabe quando.
O que você tem dito ao Davi Miguel nesses dias?
Falo para ele nunca desistir ou desanimar porque, agora, depende muito dele também. Que eu o amo muito e que tudo vai dar certo.
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