Diariamente leio nos jornais a ocorrência de assaltos, roubos e falcatruas a pessoas que portam dinheiro, sejam idosos que sacam sua minguada aposentadoria, patrões que levam dinheiro para pagar seus colaboradores, empresários que levam a féria para depósito em banco, e mesmo invasões em estabelecimentos com o único intuito de levar o produto do trabalho de gente que paga seus impostos em dia, confiando na segurança que o Estado deveria lhe dar. E, de vez em quando, vejo também grandes assaltos a empresas e caminhões de transporte de dinheiro.
As informações privilegiadas que os ladrões obtêm os fazem estar sempre um passo adiante dos cuidados e prevenções das vítimas, quase sempre inócuas.
Este preâmbulo é apenas para me conduzir aos Anos Rebeldes de 64/66, quando eu era funcionário de banco em Toledo, no Paraná, sob o regime de peso das botas militares. A agência do banco em Guaíra, também no Paraná, foi inaugurada por essa época, onde havia as famosas e belas Sete Quedas, no Rio Paraná, que simplesmente desapareceram em outubro de 1982, com o fechamento das comportas da Usina de Itaipu e que mereceram profunda lamentação do nosso grande Poeta Carlos Drummond, em setembro de 1982, às vésperas do fatídico evento: “Sete quedas por mim passaram, e todas sete se esvaíram. Cessa o estrondo das cachoeiras, e com ele a memória dos índios, pulverizada, já não desperta o mínimo arrepio...”. Se alguém quiser ver as imagens e ouvir o poema completo consulte o seguinte “link”: https://www.youtube.com/watch?v=MlgDi-tIrGM, pois vale a pena. Vejam também uma reportagem com a apresentadora Dulcinéia Novaes, que ainda faz meus olhos marejarem: https://www.youtube.com/watch?v=1AOTm4qIzfg. Eu ainda preservo um pequeno filme dessas quedas, com meus filhos pequenos atravessando uma das pontes de cabos de aço e tábuas.
As agências transferiam dinheiro de uma para outra, à medida da necessidade, e o transporte era feito pelos próprios funcionários, normalmente dois armados com revólveres, que levavam o numerário em um saco de lona, mais ou menos do tamanho, peso e a discrição de um saco de café. O saco era de base quadrada, talvez de 50x50 cm., altura de acordo com o volume transportado, chegando, imagino, a 80 cm., com alças na boca e no fundo para facilitar o transporte por dois “chapas”.
Pois bem, o primeiro numerário recebido pela agência de Guaíra, que seria inaugurada numa segunda-feira, foi levado por mim e pelo gerente de Toledo, o Sr. Adão. Em seu carro, um Fusca azul 1964, se não me falha a memória, colocamos o saco cheio, lacrado e selado, assinamos o recibo, armamo-nos com dois Taurus 38, seis projéteis e os respectivos portes de armas, sem nunca ter dado um tiro, nem mesmo a título de treinamento; abastecemo-nos com muita coragem e ousadia e partimos por mais ou menos 120 km.de estradas poeirentas, sem policiamento e sem pedágios. Chegamos à tarde, localizamos o gerente de Guaíra e inauguramos o cofre da agência que, naquele momento, estava mais vazio do que a nossa caixa de juízo. Depois foi só festa, pois chegamos sãos e salvos, apesar de transportarmos milhões de Cruzeiros, e o Clube dos Oficiais do Exército ter nos proporcionado e à cidade um baile de recepção pela inauguração de mais uma agência do Banco do Brasil na região.
Roberto de Paula Barbosa, aposentado e leitor
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