O garfo: além do bem e do mal


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O garfo foi algo singular, porque julgava-se que a colher fosse suficiente para levar a boca tanto o duro como o mole. E ele sempre esteve ligado a elegância, ao comer menos, devagar
O garfo foi algo singular, porque julgava-se que a colher fosse suficiente para levar a boca tanto o duro como o mole. E ele sempre esteve ligado a elegância, ao comer menos, devagar
Dia desses, jantando com meu marido, ele se saiu com uma perguntinha: quem inventou o garfo? E eu na ânsia de saber de todas as respostas gastronômicas, fiquei no desconforto de quem cometeu uma falta, não conseguia lembrar, já tínhamos falado sobre isso no meu curso, mas não tinha a fluência da certeza. Bom escrever por aqui, me obrigo a estudar. E assim, posso dar uma resposta categórica ao meu marido.
 
Claro, é uma invenção antiga, mas é o mais recente dos talheres, a colher, a faca, já existiam há muito, isso sem falar do hábito de se comer com as mãos. O garfo foi algo singular, porque julgava-se que a colher fosse suficiente para levar a boca tanto o duro como o mole, bem como o caldo. Então por que o garfo? Ele sempre esteve ligado a elegância, ao comer menos, mais devagar. Também foi difundido pela nobreza e burguesia.
 
Pois bem, o garfo é uma invenção bizantina, isso quer dizer a atual Istambul, isso quer dizer também que pode ter sido inventado entre os anos 330 ao 1.000 d.C., uma vez que ele chega a Europa, mais precisamente em Veneza, no século XI. No começo tinha apenas dois dentes, depois três e, só mais tarde, com a dificuldade de segurar os palitos de espaguetes, aumentaram para quatro dentes. 
 
A igreja e as pessoas mais humildes não apreciaram o instrumento, o sociólogo Dória nos conta que as pessoas diziam que comida dada por Deus não poderia ser espetada. A visão do garfo ainda é meio luxuriosa, muito diferente de uma colher, por exemplo. Poseidon é um deus, mas, ainda assim, é raivoso, agressivo e sua arma é o tridente, o mesmo pode se dizer do Orixá Exu e do próprio diabo. A imagem do tridente é utilizada como algo do mal e os filmes de terror não a ignoraram, um monte de feno e um forcado é o mesmo que dizer: sangue.
 
Mas em 1600 o clero capitulou e aceitou a utilização do garfo como algo normal, do bem. Caminhou devagar, demorou a destronar a inofensiva e útil colher. E hoje em dia a gente se assusta quando vê alguém comendo de colher, mas o hábito não foi de todo suplantado. E quem me lembrava disso era justamente uma moça que trabalhava “na pia” do restaurante: quando instada a montar o prato de comida de alguém ela sempre perguntava antes: “você come de colher ou garfo?”. Numa outra oportunidade, num elegante restaurante francês em São Paulo, vi o humorista Golias se deliciar enfiando uma colher cheia de comida na boca. Enfim, acho que a imagem é comum a todos: o garfo é fino, elegante, permite que se leve pouca comida à boca e, por oferecer uma dose de perigo, ele é também questão de maturidade. Às crianças, as colheres. 
 
 
DICA DA SEMANA
 
Carambola
 
Carambola sem exageros é o melhor jeito de apreciar a fruta que tem no mês de julho o auge de sua produção. Essa fruta não se descasca, pode- se retirar as extremidades das estrias quando endurecidas. E pode ser utilizada além da salada de frutas. Seu sabor agridoce é perfeito para as compotas, mas também deixam o frango ou o peixe mais interessantes. 
 
Outra dica deliciosa é misturá-la ao maracujá. Na proporção de uma carambola, um maracujá. Macera-se metade da carambola com a polpa de um maracujá, uma dose de pinga, gelo e açúcar, eis uma inusitada caipirinha. 

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