Descaramento


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Vamos ao respeitado dicionário Houaiss: ‘Descaramento’ significa ‘falta de vergonha, (...); ato, modos ou dito próprio de indivíduo descarado’. ‘Descarado’, ainda conferindo no Houaiss, é aquele que ‘não sente constrangimento por seus atos censuráveis’; gente que perdeu a vergonha. Você conhece gente assim? Conhece, e muito? Diria até que políticos são o melhor exemplo de descaramento porque ‘não sentem constrangimento por seus atos censuráveis’? 
 
Na quinta-feira desta semana o Brasil ouviu falar de vereadores de Santo Antônio da Platina, município do norte paranaense com população pouco maior de 45 mil habitantes. Não há dúvidas sobre as razões que motivaram a maioria deles quando aprovaram, dia 15, correção média de 114% nos salários da próxima legislatura e, também, aumento do número de cadeiras do Legislativo, na cidade, para 13. 
 
A população local reagiu, e reagiu fortemente, invadindo a sede da Câmara e protestando sem apelar à força bruta, como se deve. Pressionados, oito dos nove vereadores apresentaram emenda ao projeto inicial, retirando da pauta o ampliação do número de cadeiras e (atenção para o que você ler agora) reduzindo os próprios salários, de R$ 3,4 mil/mês, para R$ 970/mês! Queriam, antes da dura manifestação popular, R$ 7,5 mil/mês.
 
Ficasse calado o povo, estaria tudo certo. A mídia perguntou a um dos vereadores se não considerava errado uma correção como a que pretendiam no Brasil de hoje, um país em grave econômica, e ele, descaradamente, responde um ‘que crise? Não há crise!’. Povo alerta, ele ganhará agora, R$ 970, e vai conhecer a crise de perto.
 
O prefeito local, Pedro Claro de Oliveira Neto, também do DEM, ele que, segundo informações, estava em viagem no dia em que Câmara aumentou os salários, se disse ‘não avisado sobre o projeto de correção’, e que ‘vetaria (os supersalários) quando chegasse às suas mãos’. O salário do vice-prefeito local saltaria de R$ 4,5 mil para R$ 11 mil, uma correção (inconcebível) de 240% — o salário mínimo nacional teve, este ano, 8,8% de correção. O salário do prefeito foi fixado em R$ 12 mil. O presidente da Câmara, vereador do DEM, fez do limão uma limonada irônica: ‘agora o salário de vereador será prova de amor pela cidade’. Perguntei-me, quase automaticamente, se os R$ 7,5 mil que já estavam aprovados seriam prova de desamor dos vereadores de Santo Antônio da Platina pela cidade... As próximas eleições responderão. 
 
São todos iguais? Candidatos que juram buscar o exercício do poder para batalhar pela cidade e pelo povo, acabam arrastados para ‘o outro lado da força’ por quê? Decepcionam seus eleitores sem sentir constrangimento por atos censuráveis por quê? Fazem e repetem demonstrando ausência integral de vergonha por quê? Simples: o poder envaidece, mas não é só. O poder corrompe!
 
Benesses e oportunidades de todos os tipos são difíceis de recusar e, quase sempre, difíceis de serem comprovadas; o dinheiro é, quase sempre, fácil e farto. Só quem faz da ética princípio inegociável, permanece íntegro, mas a atração é enorme e quase todos balançam. 
 
Doeu, dentre os éticos da população de Santo Antônio da Platina. Em todo o Brasil, como aconteceu lá, o povo tem que estar atento a descarados. É preciso lembrar que péssimos exemplos tendem a se tornar normalidade, fazendo acreditar a quem balança, que descaramento pode valer a pena! 
 
O grande Rui Barbosa compreendeu isso em 1914: ‘de tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto’. Aliás, perguntei aqui há algumas semanas se em algum instante da vida não temos todos, pelo menos por átimo de tempo, vontade de ser bandido... 
 
 
Luiz Neto
jornalista, editor de Opinião - luizneto@comerciodafranca.com.br
 

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