Privilégios (só) para o futebol


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O plenário do Senado aprovou anteontem, em votação simbólica, a medida provisória 671, que permite o refinanciamento das dívidas dos clubes de futebol e que pune as agremiações com rebaixamento em caso de calote. O texto cria o Profut (Programa de Modernização da Gestão e de Responsabilidade Fiscal do Futebol Brasileiro) e autoriza o refinanciamento dos débitos por até vinte anos em troca de contrapartidas, como o cumprimento de exigências tributárias, a fixação de um limite para a reeleição de dirigentes, a redução do déficit financeiro até 2021 e a publicação online de prestações de contas auditadas. Atualmente as dívidas dos clubes já chegam a R$ 4 bilhões.
 
A matéria, que já havia sido aprovada pela Câmara dos Deputados e agora segue para sanção presidencial, estava sendo aguardada com expectativa pelos maiores clubes brasileiros, que vivem uma crise financeira sem precedentes, e teve o apoio da bancada da bola e da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), esta encalacrada por causa de acusações de fraudes que incluem pagamento de propinas e desvio de dinheiro, numa investigação que envolve até o FBI, a polícia federal dos Estados Unidos. Numa hora em que o País vive sua maior crise econômica, com queda na produção e altos índices inflacionários e desemprego, aprovar este benefício aos clubes de futebol não será capaz de melhorar o esporte brasileiro.
 
Os clubes de futebol, em sua maioria, continuam sendo administrados de forma temerária, gastando mais do que recebem, chegando perto da insolvência. Mesmo sem dinheiro em caixa para pagar seus próprios funcionários, embarcam em aventuras para reforçar os times e agradar às suas torcidas. Grande parte deles não investe nas categorias de base e muito menos se preocupa com a gestão financeira. Muitos anunciam contratações mirabolantes e, mais à frente, não têm condições de saldar suas pendências. O pagamento dos compromissos, como impostos e direitos trabalhistas, vai sendo postergado, pois se sabe que o Congresso Nacional sempre está disposto a dar uma ajudinha, refinanciando até o que já tinha sido acertado anos atrás.
 
Por isso, cada vez mais vemos uma redução nas verbas aplicadas para a formação de atletas dos esportes de menor visibilidade, como atletismo, vôlei e basquete. Décadas atrás, o trabalho começava nos estabelecimentos de ensino, com incentivo às equipes que tinham até um campeonato próprio. Hoje, não há qualquer movimento no sentido de aumentar estrutura de escolinhas de formação, investindo em jovens atletas, o que aumentaria a ação social capaz de retirar crianças da influência nefasta das ruas, dando-lhes chances de futuro através do esporte. Por isso, a aprovação da MP no Congresso — mais uma entre várias outras que vieram antes e não surtiram efeitos práticos —, mesmo com as sanções previstas, é um verdadeiro desserviço ao esporte brasileiro, uma vez que o futebol, mesmo sendo a maior paixão do nosso povo, precisa se adequar à realidade do País antes que se enterre de vez.
 
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