Brasileiro não suporta mais


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A violência urbana, que tem tirado o sono dos brasileiros, já atinge as raias do insuportável. Em nosso País, grande parcela dos crimes não é elucidada e, o que é pior, o Código Penal está recheado de brechas que permitem a réus confessos postergarem processos, adiando por anos o julgamento e a sentença em razão de de recursos dos quais advogados mais tarimbados lançam mão. Hoje a sensação de medo e impotência frente à criminalidade que recrudesce provoca uma reação perigosa para as vítimas: a tentativa de evitar a ação dos bandidos. Ao se sentir abandonado por aqueles que deveriam protegê-lo, o cidadão parte para o confronto. E, na maioria das vezes, leva a pior, tornando-se mais um número nas estatísticas da violência que assola o Brasil.
 
Assim foi com o frentista Márcio Rangel, 42, que morreu na tarde de ontem, na Santa Casa de Franca, depois de ser baleado duas vezes na cabeça ao tentar impedir um assalto ao local onde trabalhava durante a madrugada. Sozinho no posto localizado no jardim Aeroporto I, Márcio tentou enfrentar o ladrão que chegou armado e usando capacete. Depois de balear a vítima, o marginal vasculhou os bolsos do trabalhador e furtou cerca de R$ 700 que ele carregava. O frentista só foi encontrado quando um motorista parou para abastecer e o viu caído. As diversas câmeras espalhadas pelo estabelecimento registraram tudo o que ocorreu. As imagens causaram uma verdadeira comoção na cidade, diante da forma fria como agiu o marginal, inclusive mexendo nos bolsos de sua vítima caída no chão.
 
A atitude de Márcio foi temerária e terminou de forma trágica, assim como várias outros casos registrados pelo País afora. As autoridades de segurança aconselham às vítimas que não ofereçam resistência. O problema é que chega uma hora em que o cidadão não sente qualquer proteção por parte do Poder Público e opta por defender-se. A internação de quatro menores que agrediram e estupraram quatro amigas em Alagoas, semanas atrás, causando a morte de uma delas, por apenas três anos (a sentença do juiz baseou-se no disposto pelo Estatuto do Menor e do Adolescente), contribui para aumentar a sensação de impunidade neste País, onde não se fica preso mais de trinta anos independente do crime que se cometeu. E é esta percepção, aliada ao aumento da violência que atinge o brasileiro até dentro de seu lar, que leva a atitudes intempestivas como a que ceifou a vida do trabalhador francano.
 
Se não houver uma verdadeira união entre Poder Público e sociedade, em breve estaremos diante de um ponto sem retorno. Uma reforma no Código Penal, tornando-o mais rigoroso e menos leniente, criando-se instrumentos para tornar o Poder Judiciário mais célere, é premente. Se permitirmos que uma demagogia barata continue pautando as discussões, não será possível reverter esta situação. Precisamos tirar de nossas ruas aqueles que não merecem conviver em sociedade. Todos devem pagar pelos seus crimes. Do contrário, os confrontos vão continuar e as vítimas continuarão tombando diante desta violência urbana.
 
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