“Falta lugar pra brincar, então a gente vem pro ‘terrão’.” O autor dessa frase é Alexandre, um estudante de 14 anos que mora no Residencial Ana Dorothéa. Sem local apropriado para se divertir em seu bairro, ele se junta a outras crianças e adolescentes vizinhos para aproveitar o tempo livre em espaços públicos baldios apelidados por eles de “terrão” - uma alusão à predominância da poeira vermelha em locais que poderiam abrigar praças, quadras e parques.
A decepção observada nos jovens se reflete nos adultos, que consideram a utilização dos espaços até mesmo perigosa para brincadeiras. “Outro dia, tirei de cima do muro (em construção, dentro de um ‘terrão’) um garotinho de quatro anos que estava soltando pipa!”, disse a sapateira Patrícia Aparecida Melo, mãe de dois garotos que utilizam esses espaços.
Ela conta que, para não minar a única - ainda que inadequada - opção de diversão dos garotos, resolveu se juntar aos pais que permitem que os encontros aconteçam somente sob suas supervisões. “As crianças não veem perigo nesses materiais de construção. Ali tem ferragens expostas, pilhas soltas de tijolos... No nosso bairro, não existem áreas de lazer e isso dificulta nossa vida. Eu, por exemplo, tenho que pagar ônibus para que meu filho de 14 anos vá jogar bola lá na Estação”, completou.
Além dos riscos de acidentes, a própria poeira tem sido motivo de questionamento entre as famílias que vivem ali. “Meus netos brincam no pó e entram com os narizes ressecados e tossindo. Acho que a Prefeitura poderia fazer praça e campinho para nossas crianças”, disse a pespontadeira Silvana Quintino.
Contrariando as inseguranças dos mais velhos, os jovens do Dorothéa tentam contornar a completa falta de estrutura para lazer de seu bairro aproveitando os terrões para soltar pipa, criar rampas para bicicletas, passear com seus cães e organizar suas peladas. “Mas não adianta muito. Fizemos um campinho de futebol, só que a máquina da Prefeitura veio limpar e destruiu”, contou Alexandre. “Queria mesmo é que aqui fosse como no Paulistano, porque lá tem praça de exercícios. Ía ser bom...”, afirmou Bruno, outro estudante de 14 anos.
A reportagem entrou em contato com a Prefeitura para saber sobre os planos de utilização desses espaços públicos e, de acordo com nota enviada pela assessoria de imprensa, a Secretaria de Serviços e Meio Ambiente fará, juntamente com a Emdef (Empresa Municipal para o Desenvolvimento), um levantamento para uma “possível inclusão” do bairro no Praça Aqui - projeto que prevê a instalação de equipamentos de convivência nas áreas públicas dos bairros. “Esse trabalho vem sendo feito gradativamente, começou pelo Jardim Riviera, Aeroporto, Santa Hilda, entre outros. No caso do Ana Dorothéa, será feito um levantamento da situação para possível inclusão nessa programação.”
No entanto, a Prefeitura não mencionou nenhum prazo ou previsão para que o levantamento seja iniciado.
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