Uma das características de alguns políticos brasileiros é a cara de pau. Recentemente, vimos em rede nacional um vereador da região Norte-Nordeste do País defendendo a corrupção para melhorar os próprios ganhos. Há duas décadas, pelo menos, houve deputado federal justificando reajuste dos próprios vencimentos para que pudesse comprar “um queijinho do reino para o Natal”. João Alves (que morreu em 2006), um dos mais notórios anões do orçamento na Câmara dos Deputados, creditou o crescimento de seu patrimônio à sorte: alegava ter uma série de mais de 200 bilhetes premiados na loteria. Em SP, o ex-governador Paulo Maluf, hoje deputado federal, em que pesem as dezenas de processos aos quais responde e as condenações na Justiça, garante não ter desviado dinheiro quando era Prefeito de São Paulo. Ele não pode sair do País por constar na lista de foragidos da Interpol.
Ao longo de nossa história sempre foi assim. Quem acompanha a vida política do Brasil volta e meia se depara com desculpas deslavadas para malfeitos, ilegalidades e ações imorais. Recentemente, em Franca, o vereador Jepy Pereira (PSDB) tentou receber proventos por uma sessão da Câmara Municipal mesmo sem ter participado dela (fazia uma viagem de lazer ao Chile). Antes disso, seu colega Luiz Vergara (PSB), do dia para a noite transformou-se de opositor feroz a líder do prefeito Alexandre Ferreira (PSDB) no Legislativo. Por causa disso, ao ser interpelado por um cidadão dentro do plenário da Câmara sobre a mudança de posição, desferiu um tapa na cara do marceneiro Hélio Vissotto, fugindo em seguida.
Mesmo diante da repercussão negativa do fato (que havia sido filmado pelo fotógrafo Dirceu Garcia, do GCN), Vergara não se justificou, não se arrependeu e muito menos se envergonhou do fato. Quase dois meses após, recebeu apenas uma suspensão de 60 dias determinado pelo Conselho de Ética da Câmara. Se o corporativismo não dominasse o conselho, certamente teria o mandato cassado, já que não há o que justifique a violência contra um eleitor que buscava uma resposta. Mesmo suspenso das atividades, ele continuou participando de atos oficiais ao lado do prefeito que hoje defende. Agora, Vergara volta à carga: recorreu ao Tribunal de Justiça de São Paulo para receber os dois meses de salário que não foram pagos em virtude da punição.
Ele deve reassumir seu posto nesta semana, já que o período de afastamento se encerra neste domingo. Vergara ainda tenta na Justiça reverter a decisão da Câmara, inclusive pedindo o benefício da assistência judiciária (que o livra de ter de pagar as custas do processo), apresentando uma declaração na qual, apesar de ter bens e do salário como vereador, afirma ser “pobre”. Como se pode ver, falta ao vereador, junto com a humildade, pudor. Como qualquer político, Vergara precisa saber reconhecer os seus erros, deles se penitenciar e trocar a arrogância pela temperança. Do contrário, vai precisar de muito óleo de peroba para lustrar a cara de pau e, ano que vem, apresentar-se como cordeirinho e pedir votos do francano para se reeleger vereador.
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