Durante meu período de estudos sobre a cozinha brasileira, tive a oportunidade de conhecer pessoas interessantes, muitas vezes obstinadas, dotadas daquela invejável consciência social. Claro, dentro do conceito comer e pensar. No início, achei que as “convivências” serviriam mais para matar agradavelmente o tempo. Nesse quesito, enganei-me redondamente. A cada retorno, éramos mais maduros, ou talvez mais sonhadores, não importa, o embornal de cada aluno ficava cada vez mais cheio.
Uma dessas pessoas morreu essa semana, sinto a falta que ele fará ao mundo da comida. João Rural era um legítimo guerreiro a favor da tradição culinária caipira, não como folclore, mas como cultura, como hábito de vida a ser preservado, mais especificamente a do Vale do Paraíba. Não entrarei no mérito da sapiência de seu entendimento, ele era fogão a lenha, galinha caipira, milho crioulo, dentre tantas outras coisas, quanto mais rústico, melhor - era seu estilo.
Não vem ao caso o quanto de modernidade devemos aceitar, o que importou nesse caso é que a defesa da cozinha caipira fez dele um estudioso e não um tagarela qualquer. Ao defender que esse ou aquele ingrediente deveria ser feito dessa ou daquela forma, ele presenteou a posteridade com fundamentos através da pesquisa de porta em porta, de roça em roça.
João Rural foi escritor de dezenas de livros, um pesquisador adorável que utilizava da própria figura como marketing caipira, sempre de chapéu, botinas, dentro de um fusca, sem se importar onde estava ou com quem falava, da mesma forma desfilou pelos corredores do chiquérrimo Hotel Hyatt.
João Rural fundou um movimento, o “Cumê Divagarinho”, que se assemelhava ao Slow Food, ou ao Comfort food, mas ele jamais aceitou que qualquer um de fora fosse capaz de representar o caipira, ainda que muitas das suas ideias combinassem com muita gente por aí que anda querendo desacelerar e quem sabe até ter um rabo de fogão a lenha para se sentar. João mantinha um blog onde postava receitas, pesquisas, “causos”. As receitas são de particular interesse por conta do resgate - por exemplo, a utilização da folha do caetê para enrolar pamonha, broa, etc. João dizia que a palha de milho deixa um gosto desagradável, já as folhas dessa planta aquática, que é bem resistente ao fogo, são inodoras.
A frase inicial do blog dele é: “Tamo vivo desde 1º de abril de 2010!”. Depois da morte dele fiquei pensando na ironia de alguém que morre continuar afirmando a sua presença, ou talvez ele quisesse apenas afirmar a sobrevivência da cultura caipira. Seja como for, ele fará falta para a veracidade da frase.
DICA DA SEMANA
Para sair da mesmice
A dica de hoje é para inovar. Os dias frios nos pedem sopas e nem sempre dá para fazer aquela sopinha caprichada de legumes e aves marias. Daí o mais prático é pegar aquele feijão cozido, temperado ou não, e bater no liquidificador. Óleo e alho para fritar, sal para temperar e com uma fatia de pão temos já uma sopa deliciosa.
Se tiver cabotiá, faça assim: cozinhe a abóbora aos pedaços em água e sal e depois bata junto com o feijão numa proporção de meio a meio, fica muito bom. Essa mistura de feijão com abóbora com queijo de cabra esmigalhado fica de matar de bom e muito sofisticado.
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