Que o deserto nos seja ameno


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Ao contrário dos últimos anos, quando o movimento de vendas conseguiu reverter um quadro de queda verificado nos meses anteriores, o encerramento da 47ª edição da Francal (Feira Internacional da Moda em Calçados e Acessórios) anteontem não foi nada animador, contrariando o que se esperava antes do seu início. Embora algumas empresas tenham saído satisfeitas, com vendas acima das expectativas, a maioria considerou o resultado final apenas satisfatório, capaz de alavancar a produção por apenas dois meses do segundo semestre. A expectativa era de que o volume de pedidos conseguisse recuperar a produção nos primeiros meses do ano para pelo menos zerar as perdas.
 
De acordo com Marcelo Villin Prado, diretor do IEMI (Instituto de Estudos e Marketing Industriais), o setor vai ter ainda dois anos de deserto, conforme relatório setorial da indústria de calçados. A esperança é de que este deserto seja pelo menos mais ameno, com recuperação parcial dos níveis de produção e de emprego. O problema é que os índices econômicos divulgados nos últimos dias não são nada animadores.
 
A produção industrial em São Paulo teve em maio (ante o mesmo mês do ano passado) a maior queda dos últimos seis anos, de acordo com pesquisa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgada ontem. O maior parque industrial do País, que teve retração de 13,7%, só não registrou tombo maior do que o Estado do Ceará (13,9%). No País todo, a produção industrial teve retração de 8,8%.
 
Além disso, o mercado de trabalho brasileiro voltou a dar mostras de fraqueza, com o índice de desemprego subindo para 8,1% no trimestre encerrado em maio, segundo dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua, do IBGE. Esse número é o maior da série da pesquisa, iniciada em 2012. No mesmo período do ano passado, o índice era de 7%. No total, 8,157 milhões de pessoas estão atrás de emprego no Brasil, um número também recorde.
 
Como se pode ver, nem o cinto apertado dos brasileiros vem conseguindo reverter a deterioração dos índices econômicos, em queda desde o ano passado. Caso o governo federal não conduza de forma agressiva negociações com Estados Unidos e zona do Euro para recuperar as vendas da produção brasileira no mercado externo, apenas os pacotes de estímulo não serão capazes de absorver o estoque excedente do setor produtivo nacional, que já afeta as mais variadas áreas, da indústria automotiva ao agronegócio. O Brasil errou, há mais de uma década, ao apostar todas as suas fichas no Mercosul.
 
Nossos parceiros na América do Sul, principalmente a Argentina, importam cada vez menos do Brasil e não existem outros mercados capazes de absorver o que deixamos de vender aos nossos vizinhos. Está cada vez mais difícil retomar a tranquilidade no comércio exterior, o que é danoso para toda a atividade econômica brasileira, nela incluída, é claro, a francana, que não vê saída para o cenário problemático que se desenha para os próximos anos.
 
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