A dor de barriga passou?


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Como estimular pessoas a se tornarem melhor informadas, multiplicadoras de opinião, ética e cidadania? Há doze anos tenho perguntado aos que treino e continuo treinando em Expressão Verbal e Gestual se, em alguma época foram estimulados a falar, argumentar, debater, defender seus pontos de vistas, apresentar ideias com eficiência e eficácia. As respostas, unânimes e independentes de épocas, sempre foram ‘não, em situação nenhuma!’ Ao contrário. ‘Em casa, aprendemos que falar é prata, ouvir é ouro’, além do ‘cala a boca, menino!’. ‘Não tínhamos o que dizer ao mundo adulto e nunca houve adultos com paciência suficiente para ouvir ‘só aquilo que já sabíamos dizer, certo ou errado’. ‘Fomos desestimulados a falar no ensino fundamental, no ensino médio, na universidade, e orientados a ‘só falar’, através da escrita’. 
 
Quanto aos escritos, ‘Fizemos trabalhos para notas, mas, com a certeza de que só raramente os professores iriam conferir, contratávamos alguém para escrever. Mais recentemente, estimulamo-nos ao CRTL+C e do CRTL+V (copiar e colar) dos computadores, depois de ‘pesquisa’ no Google’. ‘Felizmente, ‘não temos (ou tivemos) que enfrentar provas orais’, que ‘tomam muito tempo para ser aplicada em todos os alunos da classe’. E, ‘É bom que seja assim. Não há nada que cause mais dor de barriga e terror que prova oral’. 
 
Mesmo em pleno século da informação, a maioria continua desconfortável quando alguém aponta, e diz ‘fale’. As mãos suam e esfriam. O coração acelera. As pernas tremem. O que se ia dizer, desaparece. Uma dor terrível, que começa ‘na boca do estômago’ e se transforma rapidamente em incontrolável desejo de fugir rumo ao sanitário mais próximo, define o homem moderno e iguala pobre e rico, letrado e iletrado, bonito e feio, poderoso e fraco. Há professores, advogados, juízes e promotores; jornalistas, cantores, pastores e padres; médicos, delegados, estudantes em véspera de TCCs, gerentes de empresas e empresários por ai a atestar. Falar, e falar com eficiência e eficácia é para poucos. 
 
Há outro fator complicador: fosse diferente, a fala prestigiada, não haveria o que dizer! Tem outro teste que aplico a meus treinandos. Pergunto: quem leu, esta semana, um jornal, ou parte de uma revista nacional? Continua quase unânime: ninguém! Se alguém diz que leu, desafio: ‘compartilhe a informação mais relevante que agora você possui’. O cidadão, pego sem previsão, sua, as mãos esfriam, o coração acelera, as pernas tremem...
 
Prossigo: quem viu televisão? Várias mãos se levantam. Pronto a ficar feliz, insisto: assistiram a um telejornal? As mãos baixam. Se, ao contrário, estimulo falas sobre capítulo de novela, o debate - irrelevante - se instala. É profundamente grave. Às dores físicas que acometem quem é indicado a falar, acrescente-se a falta de conteúdo. É o mesmo em relação a redes sociais. Há um dedicação doente a atender ao Face e o Whatsapp que apita a cada segundo; mas nunca oferecer mais que um ‘o que você quer?!’ assim, bravo, a quem, preocupado com você, tenta chamá-lo à realidade. Você sabe tudo sobre ‘bafões’ mas não sabe nada sobre seu país que caminha rápido ao fundo do poço por causa da alienação de sua gente.
 
A rotina dos destreinados não tem remédio. De estalo, no último dia em que me encontro com o grupo em treinamento — e, nesses, há gente de todos os perfis, cultura e educação — insisto: ‘quem hoje leu, ouviu, soube...?’. Continua igual. Alguns, que compreenderam técnicas que treinamos, se levantam e, menos tímidos, arriscam: ‘não deu tempo’, ‘é muita coisa, não há como saber tudo, mas vamos melhorar’. Há também quem esconda o rosto, envergonhado. É fácil entender porque políticos não precisam de muito para ganhar o voto de quem quer que seja...
 
Publiquei este texto aqui em 17/08/2013. Com pequenas edições temporais, republico hoje para mostrar que nada mudou. Mudou?
 
 
Luiz Neto
jornalista, editor de Opinião - luizneto@comerciodafranca.com.br
 
 

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