Passagem para felicidade


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Estou há cinco anos enfrentando o desafio de morar sozinha numa cidade que não é a minha. O que me desperta pânico é o fato de ter que transitar por doze horas dentro de três ônibus para chegar até a cidade onde ainda mora a minha família. Estudar longe de casa nunca foi uma opção. Decido vir porque minha mãe não podia pagar uma universidade de qualidade.  Por este motivo eu me submeto a viagens intermináveis, com uma  sensação recorrente:  todos os relógios estão quebrados, meu coração palpita e cozinha lentamente dentro de uma panela de pressão, meus olhos soam lágrimas como o espelho do banheiro pós-banho. Sinto o infinito dentro do meu ser, uma ansiedade sem fim. O nome científico disso é síndrome do pânico.
 
Sempre me angustiei com longas viagens, e estaria mentindo se dissesse que já superei este medo. Entretanto, o ser humano tem enorme capacidade de regeneração. Nós, humanos, vivemos constantemente buscando soluções apropriadas para nossas angústias e temores. Talvez este seja o lema da vida; das ideologias; também de muitas religiões. Uma superação eterna.
 
Gosto de imaginar nessas viagens que os idosos que se sentam próximos a mim são todos meu avô materno e quando o relógio da igreja bater seis horas eles vão cantar Ave Maria de uma maneira engraçada. Gosto  de imaginar a história dos livros que as pessoas leem: será um romance policial? Ou será que estão aprendendo a ler? Tudo é muito difícil na primeira vez, penso. Gosto de imaginar que as marmitas levadas pelas mulheres foram feitas pelos maridos de bom coração.  E que as músicas nos fones de ouvido são de crianças compositoras que buscam felicidade de maneira espontânea. Isso tudo me conforta.
 
Além desta soma mágica, carrego no fundo do coração a voz generosa de minha mãe dizendo que devemos ser gratos pelas nossas dores, e sempre pensar nas pessoas que sofrem mais do que nós. Assim, no início do ano, quando tive que viajar até a casa da minha família, peguei o primeiro ônibus e enquanto esperava pelo segundo no banco de uma rodoviária, vi um jornalista entrevistar o moço de bigode engraçado. O jornalista disse que estava gravando uma matéria para contar sobre as viagens no feriado; queria saber o destino do moço de bigode engraçado. Foi então que  ele  começou a falar: “Olha, eu estou viajando há oito dias. Eu sou de Manaus, estou vindo morar com a minha mãe, e aquelas são minhas duas filhas, elas foram abandonadas pela minha ex-esposa.” Olhei para as meninas, tentando imaginar aquela situação difícil. Elas apenas brincavam no chão da rodoviária, estavam com suas roupinhas mal costuradas, mas expressavam uma felicidade insuportável.
 
Então, olhei para mim e senti a enorme vontade de ser muito mais feliz.
 
 
Isabel Fogaça, professora
 
 

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