Semana passada fui indagado por uma criança de nove anos se eu queria comprar meias. Ele parou o seu patinete e começou a conversar e me mostrar as meias. No interior da sua mochila tinha meias masculinas e femininas. A inteligência do garoto me chamou atenção e comecei a conversar com ele, juntamente com um cliente que acabava de chegar. Perguntei quanto era cada pacote com quatro meias. Ele disse que era dez reais. Qual o valor de dois pacotes? Vinte reais. Qual valor de todos os pacotes que ele tinha? Cinquenta reais. Indaguei se alguém comprasse tudo de uma única vez, se teria desconto, a resposta foi negativa sob o argumento de que o preço já era muito bom. Por fim, perguntei por qual motivo não estava na escola, de quem eram as meias e como tinha conseguido. A resposta foi enfática: “as meias são do meu tio, ele traz de São Paulo para revender, eu vendo para ajudar a minha família e estou de férias”. Confesso que fiquei perplexo, pois estava diante de uma criança madura e com vivência e tino para comércio. Pedi para que trouxesse o seu tio para conhecê-lo, mas, até agora, nada.
Conversei com algumas crianças próximas, que são mais velhas e que possuem um grau “intelectual” muito mais avançado do que o referido garoto e, nenhuma delas se prontificou a vender meias na rua e sequer sabia como abordar um comprador. Disso conclui-se que a vivência nos permite aprendizados muito diferentes do intelectual. O ideal é que ambos caminhem juntos, mas penso que o fato de impedir o trabalho ou trabalhar apenas como aprendiz, com toda a burocracia que existe, está impedindo os jovens de amadurecimento para a vida. Não adiante ser inteligente, conhecer as teorias e na prática não saber aplicar a teoria. Não concordo com o fato de criança vender meias na rua e com adolescentes que estão inseridos em escolas de alto padrão intelectual não saber conversar e se posicionar para “vender meias”. Urge que a escola e os pais preparem os filhos para a vida e acredito que o conjunto (trabalho e estudo) é muito salutar para as pessoas em desenvolvimento.
Acir de Matos Gomes
Advogado e professor universitário
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.