História de vida: Irmã Aracy Cabral celebra 100 anos neste domingo


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Irmã Aracy Cabral no jardim do Instituto Jesus Maria José, no Centro de Franca, onde vive com outras dez irmãs
Irmã Aracy Cabral no jardim do Instituto Jesus Maria José, no Centro de Franca, onde vive com outras dez irmãs
Sorridente, com olhos brilhantes e uma voz que transmite serenidade. Foi assim que Irmã Aracy Cabral, que atualmente vive no Instituto Jesus Maria José de Franca, recebeu a reportagem do Comércio e partilhou um pouco de sua trajetória de vida. Já são mais de sete décadas dedicadas a vida religiosa e ao ensino religioso.
 
Com problemas de audição, mas uma memória impecável com histórias e emoções que viveu em seus cem anos de vida, recém completados ontem, 4 de julho, a “Menininha”, forma como é carinhosamente chamada pelas irmãs do instituto, se emocionou ao falar sobre a infância vivida em Muzambinho (MG), cidade natal onde nasceu no ano de 1915. Irmã Cabral também ficou emocionada ao falar do amor e da fé transmitidos por seus pais. “Meu pai sempre fez questão de nos garantir uma educação primorosa. Éramos nove irmãos e sempre vivenciamos a fé de nossos pais e frequentávamos a igreja da cidade. Na primeira comunhão de dois irmãos, mesmo sem saber exatamente o que deveria fazer, fui até o confessionário escondida, confessei o que achava ser os meus pecados e já participei da comunhão. Ali foi o início da minha vida religiosa”, disse.
 
Depois de muitos anos, já trabalhando com magistério, ela continuou frequentando a igreja, mas sem pretensão de seguir vida religiosa. “Certa vez eu brinquei que se recebesse uma flor branca quando saísse da igreja (naquela época era comum as jovens receberem flores ao deixar a igreja) era sinal de que seguiria a vida religiosa e me tornaria freira. Nesse dia, saindo da igreja, recebi a flor branca, mas acabei esquecendo da promessa por muito tempo”, disse.
 
Percurso
Mesmo nascida em uma família religiosa - ela tinha um tio bispo e um irmão padre - a vocação não chegou tão cedo na vida da professora que amava bailes de Carnaval e até foi noiva por alguns anos. “Quando decidi ser freira e contei para algumas amigas elas começaram a rir de mim. Sempre adorei festas, dançar e cantar. No Carnaval eu era a mais animada, realmente ser freira era uma coisa que não passava na minha mente no início”, disse.
 
Depois de trabalhar como professora em escolas de várias cidades, Irmã Cabral teve a oportunidade de lecionar no Colégio Jesus Maria José, em Poços de Caldas. “Uma Irmã que trabalhava lá como professora de canto ficou doente e surgiu a vaga, como tinha um pouco de noção de música, a diretora do colégio me convidou para a aula e eu aceitei. Nesse período ainda não tinha pensado em me tornar freira”, disse.
 
Irmã Cabral contou que uma Irmã que trabalhava na escola na época foi a primeira pessoa a lhe falar sobre a sua vocação para servir a Deus. “Ela falou que enxergava em mim traços de uma religiosa. No momento, como nunca tinha pensado nisso, minha primeira opção foi começar a rir. Depois comecei a me interessar mais pelo assunto e busquei informações de como era a vida no convento”, disse.
 
Ela diz que como “não se via como uma mulher casada e feliz no matrimônio”, em 1944, terminou o noivado. Ela era professora na época e decidiu seguir a vida religiosa. Se tornou, então, postulante no colégio Jesus Maria José, em Poços de Caldas. Em 1948, já em Franca, a Irmã fez seus votos. “Foi aqui em Franca que realmente ingressei na vida religiosa. Nada havia conseguido me preencher tanto quanto a minha vocação. No momento em que recebi o chamado de Deus, uma alegria imensa me preencheu e assim foi durante toda a minha vida”, disse.
 
Mudanças
Depois de iniciar aulas no colégio de Franca, a Irmã foi para Campinas viver em um pensionato com outras freias. Ela passou 17 anos ensinando em Bandeira do Sul (MG), além de distribuir ensinamentos também em Poços de Caldas, Botelhos, Iturama, Lima do Oeste, São Tomás de Aquino, Batatais e Aparecida do Norte. “Sempre que visitava uma cidade, antes mesmo de entrar para a vida religiosa, a primeira coisa que fazia era visitar a igreja. Acredito que apesar de ter realizado meus votos mais tarde, sempre tive essa vocação. Tive muita felicidade na minha vida e acredito que nenhum outro caminho que pudesse ter seguido, longe da minha vocação, teria me feito tão feliz quanto fui”, disse.
 
Atualmente Irmã Aracy Cabral vive no instituto com outras dez irmãs. Ela divide sua rotina indo a missa diariamente e rezando o terço. “Comecei minha religiosa aqui em Franca, em 1948, e é aqui que pretendo encerrá-la”, disse, emocionada.
 
Celebração
Neste domingo, às 10h30, será celebrada uma missa de Ação de Graças na Catedral Nossa Senhora da Conceição pelos 100 anos de vida e doação da Irmã Aracy Cabral. 
 
Além de todas as irmãs que vivem no Instituto Jesus Maria José, participarão da cerimônia familiares da religiosa que atualmente moram nas cidades de Guaxupé, Taubaté e Rio de Janeiro. “Essa missa é uma forma de celebrar todos os anos que dediquei a vida religiosa e a minha grande devoção a Deus, além da minha felicidade. Estarão reunidos todos os meus familiares e as Irmãs com quem moro no Instituto. Com certeza será um momento de emoção plena e muita felicidade”.

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