‘O ‘Comércio’ é minha vida, sem o ‘Comércio’ eu não vivo’


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Editorialista completou 35 anos de serviços e passou por todas as etapas de produção do jornal ao longo de sua carreira: “Ali aprendi não só a trabalhar, como aprendi a ser gente e aprendi sobre a vida“
Editorialista completou 35 anos de serviços e passou por todas as etapas de produção do jornal ao longo de sua carreira: “Ali aprendi não só a trabalhar, como aprendi a ser gente e aprendi sobre a vida“
Sidnei José Ribeiro, ou Sidão, como é chamado pelos amigos, passou a maior parte de sua vida dentro da redação do Comércio da Franca. Ele tem 53 anos e acaba de completar 35 como funcionário da empresa. Foi admitido no dia 30 de junho de 1980, data em que o jornal comemorava seu 65º aniversário.
 
Sidão começou sua carreira como revisor e passou por todas as etapas de produção do jornal. Foi redator, fotógrafo e editor. Também aprendeu a imprimir e a fazer entregas. Tinha a responsabilidade de fechar o jornal com as principais notícias do dia e da noite, quando a tecnologia era palavra rara e internet uma ferramenta desconhecida. “Câmera digital, celular, o que era isso?”, diz ele, com bom humor, ao lembrar daqueles tempos. 
 
Atualmente, editorialista do jornal, se prepara para se aposentar. Na semana em que o jornal completou 100 anos, ele mudou de lado: em vez de perguntar, foi entrevistado e falou sobre sua paixão pela escrita e o amor pelo jornal.
 
Como começou a sua história com o Comércio da Franca?
Eu já havia feito teste para revisor no Comércio antes, quando eu estudava na sétima série, mas não passei e acabei indo para o Diário da Franca. Um ano depois, o Comércio publicou outro anúncio porque estava precisando de revisor. Comecei a insistir com um funcionário da época, que era o José Ronaldo, diagramador, e acabei indo ao jornal em um sábado, dia 28 de junho. Conversei com o Corrêa (Neves, diretor do jornal à época) e ele me disse para começar na segunda-feira. Meu primeiro dia de trabalho foi 30 de junho de 1980, dia do aniversário do jornal. Depois disso, saí duas vezes do jornal, mas acabei voltando.
 
Você trabalhou como revisor por quanto tempo?
Como revisor fui até 1982. Quando fiz 20 anos de idade, assumi a edição. Em seis meses de trabalho, já era redator. Passei a escrever uma coluna de televisão, a TVendo. Sempre me interessei por televisão, sempre gostei. Como a coluna estava vaga pedi para o Corrêa e ele autorizou. Só que ele pensou que eu fosse fazer “gillete press” (usar textos prontos), mas eu próprio escrevia os textos. Ao ver que eu tinha o dom, o Corrêa começou a me instruir. Foi quando me tornei redator. Naquele período, passei a trabalhar à noite, acompanhava o fechamento do jornal, e fui aprendendo a diagramar. Fazia chamadas e fechava a primeira página. No começo de 82, o Corrêa viajou para a Argentina e, nesse meio tempo, o editor abandonou o jornal. Acabei assumindo o serviço. Como eu dava conta de fechar sozinho, o Corrêa disse que confiava em mim e que era para o editor não passar nem mais na porta do jornal. Passei por todas as etapas do jornal, até mesmo imprimir. Aprendi a fazer do anúncio até a distribuição. Acho que o editor tem que conhecer todas as etapas e saber como faz para poder cobrar.
 
Como era fazer jornal sem máquina fotográfica digital, internet, Google, telefone celular e WhatsApp?
Era muito complicado. Além de não termos ajuda da tecnologia, como hoje, outra dificuldade era encontrar profissionais. Não havia mão de obra. Era preciso formar o profissional. Na década de 80, quando sumiram os empregos nas fábricas de calçados, a gente publicava anúncio e formava fila na porta do jornal. A gente pegava um funcionário, ensinava, mas, quando o emprego voltava na fábrica, ele ia embora e a gente ficava na mão. O jornal era pequeno, era muito caro produzir. Muitas vezes, a gente tinha que assobiar e chupar cana. Eu apurava a informação, escrevia o texto, fotografava, revelava e copiava a foto. A gente não achava alguém que se dispusesse a sair de casa às três da madrugada para fazer uma foto. Não existia esta cultura de jornal. Brincava e dizia: ‘jornal não é padaria. fazer jornal não é igual fazer pão, que você coloca a massa e saí o pão’. Cada dia, o jornal é de uma forma. Jornal também não é repartição pública, que você entra às 8 horas e sai às 5 horas da tarde. Mesmo com as facilidades de hoje, com a tecnologia, a pessoa tem que gostar do que faz. O jornal é paixão. A maioria dos jornalistas está na profissão porque gosta. Por que não há rotina. Você nem sempre tem hora certa para comer, para dormir, para a família... Na década de 80, comecei a fechar a redação mais tarde para poder noticiar o máximo possível. Como não tinha internet, monitorava as rádios. Ouvia o jornal da Eldorado, às 22 horas, e o jornal da Excelsior, O seu redator chefe, que era à meia-noite, para colocar os últimos acontecimentos no jornal.
 
Pressão e tentativas de intimidação são situações corriqueiras na vida profissionais que trabalham em jornais independentes. Na sua época, quando a cidade era ainda mais conservadora, como era publicar denúncias?
Nossa, passei por muitas pressões. Em Franca, a gente destacava muitas reportagens policiais, acidentes, crimes. O leitor corria atrás disto nas bancas. Mas sempre tem aqueles que não gostam de ser notícia.  Sofri muitas pressões da Prefeitura da época. Eu jogava vôlei no vale dos Bagres todos os domingos. Um dia, levei a máquina, tirei fotos e fiz reportagem dizendo que o local estava abandonado. Deu um abalo geral na Prefeitura. Meu contato lá dentro, que me contou o que estava acontecendo, foi demitido, foram em cima dele. Chegaram a pedir minha cabeça, mas, como somos um jornal independente, isso não funciona. Mas era difícil. No jornal chegava a entrar gente para te cobrar, ameaçar. O cara entrava e vinha para cima de você. O risco era muito grande. Uma vez, entrou um cara com um revólver 38 na cintura e reclamou de termos publicado que ele havia sido preso por andar com arma.
 
Você viveu a maior parte de sua vida na redação do jornal...
Metade da minha vida foi lá, mais da metade, na verdade. Cheguei, inclusive, a morar dentro do jornal.
 
Como assim?
Na época, eu morava na casa do Corrêa, na Vila Flores. Aí, ele decidiu se mudar para a chácara dele, no Jardim Noêmia, e não tinha onde eu ficar. Eu saia muito tarde do jornal e não tinha ônibus. Como eu tinha uma certa resistência em tirar a CNH, não dirigia então, decidi morar, literalmente, no jornal. O Comércio foi minha casa por mais de um ano. Até costumo brincar que eu e o Júnior (Corrêa Neves Júnior, hoje diretor executivo do GCN) dividimos a mesma cama, só que eu dormia de dia e ele à noite. Enquanto um não estava dormindo, estava o outro. Isto, foi na década de 90.
 
Você tem saudades daquela época?
Não vou dizer saudades, pois era muito difícil pra gente. Eu e o Júnior virávamos a noite. Tinha dia que um olhava para o outro e não estava aguentando de tão cansado. Era só a gente, não tinha ninguém para fazer. Era uma luta colocar o jornal na rua, muito difícil mesmo. O jornal cresceu. Com o plano Cruzado, o jornal explodiu. Em seis meses, passou a ter dois cadernos, um caderno só de classificados.
 
Quem recebia o jornal em casa não imaginava o desafio que era fazer a produção...
Como dizia o Corrêa, se o pessoal soubesse o trabalho que dava para fazer o jornal, não usava ele como papel higiênico. O Corrêa dizia isto: ‘jornal tem que enquadrar e por na sala’. Porque é uma luta, uma dificuldade, e o jornal sai todos os dias.
 
Você já imaginou sua vida sem o Comércio?
De jeito nenhum. Se tem uma coisa que sei fazer é escrever. Também gosto de cozinhar, mas só em casa. Não daria para trabalhar em restaurante. Graças a Deus, encontrei pessoas que me direcionaram e me auxiliaram a fazer melhor aquilo que eu já sabia fazer, que era escrever. Fiz até a oitava série, mas tinha facilidade de aprender e de fixar as informações. Lendo, fui aprendendo a estrutura de um texto. Também tive preciosas dicas do Corrêa e da dona Sonia (Machiavelli, presidente do Conselho Consultivo do GCN). Acho que escrever, escola nenhuma ensina, faculdade nenhuma ensina, é um dom que as pessoas têm. O escritor nasce escritor. Mas você tem que ter interesse. Leio muito. Gosto muito do noticiário. Sem jornal, sem escrever, sem notícia, eu não me imagino.
 
O que o Comércio da Franca representa na sua vida?
Olha, tirando minha família, representa tudo. São duas coisas que prezo muito: minha família e o Comércio da Franca. Tudo o que tenho, tudo o que sou, tudo o que construi, tudo o que consegui, foi com o Comércio. O Comércio dependeu de mim e eu dependi do Comércio. Se estou tranquilo em casa, com o carrinho na garagem, é graças ao Comércio. Saí do jornal duas vezes, mas o tempo máximo que me ausentei foram seis meses. Então, é minha vida. O Comércio é minha vida, sem o Comércio, não vivo. Sem as pessoas que ali trabalham, eu não consigo.
 
Como é ver o jornal completar o centenário?
Cem anos não são cem dias. Se o jornal chegou à esta marca é graças ao trabalho do Corrêa, da dona Sonia e, claro, do Júnior, que manteve o Comércio. Se fosse outro, iria falar: ‘ah, agora vou vender isto aqui e que se dane o resto’ (se referindo a quando morreu S. Corrêa). O centenário também se deve a todos os diretores, o José de Melo, o Ricardo Pucci, o seu Alfredo Costa..., e aos funcionários também, o pessoal que manteve, Antônio Constantino, Alfredo Palermo, João Roberto Corrêa e tantos outros, mas o principal é a cidade. De nada adiantaria ter um jornal, se a cidade rejeitasse. Se o Comércio chegou aos cem anos é porque tem credibilidade, é o espelho do que o leitor pensa, ele é o porta voz de Franca e região. Se não fosse assim, ele não chegaria ao centenário. Tantos veículos de imprensa, com muito dinheiro, pararam no meio do caminho. 
 
Obrigado a você também pela contribuição. Parabéns pela sua história de amor ao jornal...
Eu que agradeço. Foram 35 anos da minha vida que passei dentro do jornal, trabalhando no jornal, fazendo o jornal. São duas vias: além da minha dedicação, da minha facilidade de fazer o que gosto, houve essa troca, o jornal também me permitiu fazer parte desta família, que me permitiu ser jornalista. Ali aprendi não só a trabalhar, como aprendi a ser gente e aprendi sobre a vida. O jornal é, praticamente, tudo na minha vida.

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