Minha paixão pela vida advém de atitudes e de exemplos que me encantaram, que me encantam e que, certamente, continuarão encantando a paisagem que margeia este meu resto de caminho.
Uma vez, um anônimo plantou uma capela lá no topo de remota colina. Um menino, em remotos tempos, passou a cavalo, defronte à igrejinha. Seu coração se demorou na cruz de madeira rústica e, para sempre, ficaram iluminadas as estradas que ele percorreria. Quando cresceu, o menino se pôs a esculpir catedrais nas nuvens e nos olhos.
Uma vez, um homem, metade cego, dispôs-se a cantar, em versos, todos os feitos de sua gente. O trabalho foi hercúleo. Para realizá-lo, navegou muitos mares, conviveu com povos estranhos, sobreviveu a naufrágio, tapeou a intolerância religiosa e cantou e cantou, e seu canto aqueceu e imortalizou todo o seu povo, toda a sua brava gente.
Uma vez, um homem desejou cantar somente a sua aldeia. Pôs, todavia, tanto ardor na sua voz, tanta luz nos acordes, recorreu a tantos inusitados instrumentos, que sua canção revelou entranhas do coração dos homens. Ao cabo, sua composição restou hino a abrigar todas as sensibilidades.
Um dia, lá longe, lá na outra margem do Atlântico, um homem de bem internou-se em laboratório. Então, pacientemente, debruçou-se sobre compêndios, consultou alfarrábios, observou a natureza. Além da pesquisa junto aos sábios, manuseou tubos de ensaios, examinou plantas, viajou ao coração das células. Seu labor foi, enfim, um persistente estudar e experimentar. Quando abriu as portas do laboratório e saiu, a gritaria, e a correria, e a alegria, e toda a vida sorria nas pernas, nos membros brancos, negros e amarelos de todas as crianças.
Uma vez, um homem de nome esquisito embarcou sozinho numa nave e voou até regiões muito acima das nuvens. Pilotando embarcação limitada, despida da atual tecnologia e das atuais normas de segurança, enfrentou o desconhecido e abriu as portas do universo para a Ciência e para outros nautas.
Uma vez, no longínquo ano de 1915, um outro visionário plantou, à sombra de colinas, uma semente de imprensa. Tratava-se de semente rara, importada de longínquas plagas, a qual dificilmente vingaria em áreas até então quase desérticas. Mas os visionários são persistentes e, quase sempre acreditam, tornam concreto aquilo que, para o homem comum, é impossível.
Visionário pela metade, mas também visionário, sempre imaginei aquela iniciativa como o erguimento de catedral, levantada pedra a pedra, tijolo a tijolo até suas torres rasgarem nuvens, penetrarem o céu.
Sempre imaginei que José de Melo, o plantador da semente chamada Comércio da Franca, agiu assim:pronta a catedral, acendeu, no seu altar e no seu sonho, cem velas. Ao longo do tempo, ano a ano, uma a uma, foram elas sendo sopradas. Cada vela apagada era o marco de um ano de sucessivas vitórias.
A semente germinou, virou broto, espalhou raízes. Devidamente regada e adubada de sonhos, de aspirações e de idéias sãs, a primitiva semente se distanciou das origens, virou árvore frondosa, com alicerces sólidos, capazes de resistirem às intempéries de toda classe, vindas de todas as direções.
Hoje, neste ano de 2015, apaga-se a derradeira vela acesa pelo primeiro diretor do jornal, o visionário José de Mello.
Feliz, toda uma cidade exalta hoje o fato de a catedral permanecer imponente e sólida.
Do lado de lá de todos os oceanos, certamente o plantador da semente e todos os demais pioneiros, todos os seus sucessores observam os jornalistas Corrêa Neves Júnior e Sonia Machiavelli acenderem outras cem velas, asseverando futuro iluminado para a imprensa francana.
E o meu espírito de ficcionista, e os espíritos de todos os visionários se descobrem e comungam a esperança de que todas as velas possam ser apagadas, uma a uma, ano a ano, para que, de novo, nova centena de velas sejam acesas.
Luiz Cruz de Oliveira é professor, escritor e autor de 23 livros
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