Alfredo Costa


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Um tributo à inteligência e ao espírito público de um dos ex-proprietários do Comércio
Um tributo à inteligência e ao espírito público de um dos ex-proprietários do Comércio
Uma das figuras maiores que esta cidade conheceu, pela sua dignidade e pelo seu espírito público, Alfredo Henrique Costa precedeu o jornalista José Corrêa Neves no comando do Comércio da Franca. Ao longo de uma vida intensamente ativa, fez história na imprensa, na carreira universitária e na consultoria jurídica, advogado também que era.
 
Foi o artífice de uma nova era no jornalismo francano, não só por transformar o Comércio em órgão de publicação diária, mas sobretudo por imprimir-lhe uma linha de conduta independente, combativa e voltada para os interesses da comunidade. Deu vida e respeito ao Comércio, reflexo da concepção responsável que cultivava sobre a missão social da imprensa. Foi assim que, em defesa desses princípios, jamais hesitou em valer-se de sua notável inteligência, de sua vasta cultura e do seu impressionante discernimento das coisas. E da polêmica, quando necessário.
 
E assim o Comércio, reconhecidamente atuante e coerente, foi alçado à condição de porta-voz de tantas causas importantes e justas, várias delas até então adormecidas. 
 
Professor universitário, teve importante presença nas faculdades de Direito, desde a fase de sua estruturação, e na de Ciências Econômicas (hoje Uni-Facef) e também figurou entre os primeiros docentes da antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Franca, em todas elas pontificando nas disciplinas de Economia e História Econômica. 
 
Alfredo Costa era membro ativo e influente da Maçonaria. Ali encontrou campo fértil para transmitir seu pensamento sempre construtivo e para projetar seus ideais humanitários em plena consonância com os princípios da ordem. E, dentre tantas iniciativas louváveis, vale lembrar que ele deu vida à Lasep, a instituição ainda hoje ativa, vinculada à Loja Independência III, destinada precipuamente a proporcionar bolsas de estudos a alunos destituídos de maiores recursos.
 
Também ao Rotary ele fez cumprir o seu talento, num período em que essa entidade abrigava expressivas lideranças, as quais tomaram para si a tarefa de liderar marcantes empreendimentos vinculados ao progresso desta terra.
 
Transportando o foco da descrição para o perfil intelectual, AHC impressionava - e como! - pelo seu raciocínio lógico e, como poucos, usava a prática dialética na interpretação dos fatos e no debate das ideias.
 
Idealista, livre pensador, arauto do pensamento universalista, destituído de preconceitos, foi em conseqüência dessa sua formação vítima da incompreensão, da truculência e da ignorância manifestadas em certa fase da Ditadura de 64. Preso, humilhado e levado para Ribeirão Preto, onde ficou trancafiado em uma das celas destinadas a “teóricos da esquerda”, só retornou a Franca após meses de padecimento físico e moral. E, quando voltou, já não era o mesmo. Por tudo que se viu, então, ele personificava o desencanto. A ninguém deu a conhecer expressamente a extensão de sua mágoa, a revolta íntima, parceira da inevitável e profunda desilusão. Aquele humanista que, por princípio e convicção, empunhara a bandeira contra qualquer forma de prepotência, de opressão e de injustiça, tratou logo de buscar a renúncia, impondo-se ao recolhimento do lar, distanciando-se o mais que pode do convívio social e de todas as suas lides que eram tantas. Fizeram dele um espectro daquele cidadão prestante, que acumulara a riqueza do conhecimento e que tinha orgulho de sua natural vocação de ser útil à comunidade onde vivia.
 
Homem à frente de seu tempo, jamais concebera a ideia de ser um dia severamente punido, paradoxalmente em consequência da inabalável crença no primado da dignidade, do espírito público e da liberdade de pensamento. Porém, a par de todo transtorno desse episódio, ressalta evidente que de tais conceitos o Alfredo Costa fez escola, numa gama de ensinamentos ainda hoje seguidos e respeitados por todos que tenham convivido com ele, e, muito importante, que se mantêm preservados como elementos básicos no conjunto das diretrizes que norteiam a conduta firme e coerente do Comércio da Franca, prioritariamente posicionada a serviço da vasta comunidade onde atua.
 
Diante disso, se vivo estivesse, haveria Alfredo Costa de recobrar muitos momentos de entusiasmo e de orgulho ao constatar, gratificado, o hoje centenário Comércio da Franca que se impõe como reconhecida potência jornalística e se valoriza merecidamente pela inquestionável qualidade editorial. 
 
Ao fim e ao cabo, ao conferir destaque à figura do mestre Alfredo, no bojo das comemorações do centenário do jornal, a direção do Comércio faz por resgatar a memória de um francano de reconhecido valor, num momento em que, no geral, as sociedades padecem do déficit de atenção, quando se trata de manter viva a lembrança dos seus beneméritos, relegando-os ao esquecimento e desconhecendo os seus exemplos. 
 
 
Luis Carlos Facury é empresário do setor calçadista

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