Andanças


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Meu coração insone vaga pelas vias literárias da minha terra.
 
Vem descendo a Avenida Presidente Vargas quando depara, lá perto do Cruzeiro, com vultos sagrados do passado. Formam  animada roda, em cujo centro se encontram Chorinho, violão roçando o peito, fazendo solo para Ygino Rodrigues que declama
 
 
A pinta preta que tu tens no rosto
É uma pinta mimosa e tão pequena
Que dá mais encanto e mais amena
Graça, qual nuvem leve em céu de agosto.
 
 
Reverencio-os, reverencio Mário D’Elia, Moisés Maia e desço a avenida. Nas proximidades da Praça João Mendes, deparo com Antônio Constantino . Ele folheia um volume de seu Este é o canto da minha terra, livro de poemas modernistas que ombreia com todos os demais livros do gênero, publicados na mesma década de 1920 em nosso país.
 
Perto da antiga Farmácia Normal, cruzo com Jonas Deocleciano Ribeiro e, diante do edifício da Acif, deparo com Josaphat Guimarães França e seu Pincel Daltônico. A humildade excessiva do poeta se impõe e ele esconde a premiação que mereceu da Academia Brasileira de Letras.
 
No centro da praça, quem se impõe é a figura imponente de Carlos Assumpção. Com seu Protesto vertido para diferentes línguas, ele insiste:
 
 
Eu quero o sol que é de todos
Quero a vida que é de todos
Ou alcanço tudo que eu quero
Ou gritarei a noite toda
Como gritam os vulcões
Como gritam os vendavais
Como grita o mar
E nem a morte terá forças
Para me fazer calar.
 
 
Continuo meu caminhar e me deparo com Evelina Gramani Gomes diante do prédio do correio. Certamente pensa nos tempos em que ali era escola, em que ali lecionou. Junto da romancista está toda a literatura feminina desta terra – pródiga e sólida como não encontrei nunca em cidade de porte igual.
 
Caminho e, por todas as ruas, a iluminação pública destaca os sete verbetes que nossa cidade e nossa literatura conquistou na Enciclopédia da Literatura Brasileira, organizada por Afrânio Coutinho.
 
 
Luiz Cruz de Oliveira, professor, escritor, autor de 23 livros

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