Há duas figuras fundamentais nas famílias, quais sejam a do Tio e a da Tia. Geralmente solteiros, são aqueles com tempo para brincar com as crianças; que arranjam modo de levá-las ao cinema; comprar sorvete e sanduíches fora de hora. Antigamente eram eles que nos escoltavam como companhia vigilante, mas nem tanto. Mesmo sem grana, a eles os sobrinhos recorrem para completar a mesada com vistas àquele sapato cobiçado, óculos da moda, novo celular, brinquedos: novidades. Longe de serem avós, de perto não se confundem com eles. As mulheres da minha geração, as sortudas digo, tiveram aquela tia que sabia o nome da poção que tirava a cólica menstrual e apareciam do nada para trazer a bolsa de água quente para nosso alívio. Depois, nos pós-partos, faziam plantão em nossa casa. Pura sorte, há crianças com tios bem jovens, nascidos na extemporaneidade famíliar, adorados pelas sobrinhas que têm orgulho deles, e pelos sobrinhos, que o olham como a um espelho. Topam tudo: do rolar na grama à deglutição de porcarias. Sabem desenhar, ajudam com o computador, protegem-nos e os olham com mel a escorrer pelos olhos.
(Lúcia H. M. Brigagão)
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