NOTÍCIA


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Narrar o cotidiano parece ser uma tarefa muito simples. E o é, de fato, para a imensa maioria de seres humanos que habitam este mundo. Ninguém duvida de que qualquer indivíduo possa com certa habilidade voltar para casa depois de um longo dia de trabalho e narrar pormenorizadamente como foi seu dia, os fatos que testemunhou ou o que eventualmente tenha assistido na tv, lido num jornal ou numa revista. O que também pode fazer numa roda de amigos, num grupo religioso, na escola ou num descontraído bate papo com os vizinhos.
 
Narrar os mesmos fatos com um mínimo de opinião, exercendo uma crítica sobre eles, contextualizando e demonstrando compreensão sobre suas implicações tanto na sua vida quanto na vida de seus interlocutores, isso já configura exercício complexo e, algumas vezes, traiçoeiro mesmo. Afinal, quando se envereda por esta seara, há que se estar preparado para confrontar seu próprio senso crítico com os dos demais cidadãos, bem como ouvir o contraditório, perceber outros pontos de vista, lidar com interesses os mais diversos. Tudo isto mantendo coerência.
 
Em se tratando de um jornal impresso, com uma tiragem robusta, o exercício dessa narrativa passa a ser chamado de transmissão da informação e ganha proporções incríveis.
 
Penso que é uma missão extraordinária confeccionar um periódico que pode num único dia passar pelas mãos (e sob os olhos) de dezenas de milhares de pessoas.
 
Esses números são fantásticos. Ao mesmo tempo em que dão as dimensões da responsabilidade que pesa sobre os ombros de toda a equipe de profissionais envolvida no processo, desde o diretor responsável (ou editor chefe) até o colaborador que aciona a moderna engrenagem de impressão, passando por repórteres, fotógrafos, motoristas, articulistas, colunistas, etc.
 
Quando recebo o Comércio em minha casa, logo de manhãzinha, sei que estou recebendo muito mais do que narrativas, fotos ou notas de colunas sociais. Aquelas páginas estão impregnadas do esforço e do senso crítico de profissionais que correram atrás da melhor informação, apuraram rigorosamente seu conteúdo, definiram criteriosamente até decidirem qual a melhor maneira de ajudar-me, como cidadão, a entender o mundo à minha volta, aguçando cada dia mais meu senso crítico para que eu também possa atuar na sociedade de maneira a construir um mundo melhor.
 
De forma que, quando uma cidade tem o orgulho de celebrar o centenário de um jornal impresso de grande penetração, ela celebra também sua própria capacidade de fazer autocrítica, de se reinventar a cada dia. 
 
O jornal impresso, mais que papel e tinta, carrega consigo o potencial que tem em si toda uma população: o de voltar o olhar para si mesma nas páginas impressas - incluindo os conteúdos de caráter nacional e internacional. Assim, olhando para o presente rememora o passado ao mesmo tempo em que toma decisões que, espera-se, sejam as mais acertadas em vista de um futuro melhor.
 
Desejo aos leitores, por fim, que não apenas leiam jornal. Mas também que leiam-se a si mesmos nas suas páginas. Desde os jovens até os anciãos. Afinal ele, o jornal, é o recorte crítico do que somos todos os dias, em todos os ambientes nos quais interagimos e interferimos gerando hoje o que será notícia amanhã.
 
 
Ronaldo Pereira da Silva é vendedor e universitário

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