Uma das bases do meu trabalho é distribuir “iscas intelectuais”. Está no nome: iscas não matam a fome; abrem o apetite. As minhas servem, então, para despertar apetite intelectual. Um fragmento de texto, uma música, uma ideia, um argumento, um poema, uma frase se tornam gatilhos que podem motivar busca de gente com conteúdo, capaz de enriquecer repertórios, mas, para funcionar, é necessária contrapartida do leitor. Tem que ir atrás. Ao contrário, não funcionam.
Publiquei frase polêmica de Bill Levit: “Alguns têm talento. Outros compensam a falta de talento com trabalho duro. Para o resto existem os sindicatos.” A reação não demorou. “Puro lixo! Os sindicatos surgiram para ganhar direitos para os trabalhadores e combater a exploração pelos patrões capitalistas. Seguro que você conheça a história. Falar que os sindicatos são para gente que não tem talento ou não se esforça é um argumento muito ruim. (...)”.
Indignado com afirmação que vai contra seus credos, o leitor não ficou curioso em saber quem é o autor da frase. Tivesse, aprenderia que Bill Levitt revolucionou a construção de casas nos Estados Unidos, reduzindo tempo e custo para atender veteranos que retornavam da II Guerra Mundial. Criou o conceito do bairro de subúrbio planejado, marca cultural dos Estados Unidos. Foi um dos responsáveis pela criação do “American Dream” que ajudou a tornar os Estados Unidos a nação mais poderosa do planeta. Quebrou paradigmas gigantescos. Um, talvez o maior, foi enfrentar pressões de sindicatos que se sentiram ameaçados por suas ideias.
Quem mordeu a isca aprendeu sobre a história dos Estados Unidos, sobre o gênio empreendedor e personalidade polêmica de Levitt, acusado, entre outras coisas, de racismo. Quem foi atrás teve lição de empreendedorismo e liderança. Quem não mordeu a isca não aprendeu nada, não ganhou nada. Saiu do jeito que entrou. Vale outra dica: morda a isca’.
Luciano Pires
Jornalista, escritor, palestrante, cartunista
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